EFE/ALEXEI DRUZHININ / SPUTNIK / KREMLIN POOL
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Expulsão de diplomatas é secundária para Putin diante de tragédia

Maior preocupação do presidente russo é revolta com incêndio que matou pelo menos 64 pessoas – 41 delas, crianças – em shopping na Sibéria

Andrew Higgins, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

27 Março 2018 | 21h45

Ao final de um mês em que exibiu novos mísseis, anunciou uma missão espacial a Marte e foi reeleito presidente da Rússia, Vladimir Putin enfrentou nesta semana uma dura realidade: uma nação enfurecida pela morte de dezenas de crianças presas em um shopping em chamas.

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Putin viajou para a Sibéria ontem para colocar flores ao lado de um memorial improvisado para pelo menos 64 pessoas – 41 delas, crianças – que morreram queimadas no domingo no shopping de Kemerovo, na Sibéria.

Algumas das crianças morreram quando tentavam fugir e encontraram as portas de saída de emergência trancadas. “Como isso pode ter acontecido?”, questionou Putin a autoridades locais, ecoando uma pergunta feita por todos os russos – os mesmos que votaram esmagadoramente para reeleger um presidente que há 18 anos no poder se gaba de fazer a Rússia forte e segura.

A indignação abafou a expulsão de diplomatas russos de 26 países em retaliação ao envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal e de sua filha no Reino Unido. As cenas de crianças lutando para escapar do movimentado shopping distraíram a atenção de uma crise diplomática que normalmente teria sido usada para alimentar o fervor patriótico.

Em vez de culpar o Ocidente, Putin usou outra de suas armas habituais: colocou o Ministério de Situações de Emergência (CIR), uma espécie de Polícia Federal, para investigar o caso. Depois de culpar o “desleixo” e a “irresponsabilidade criminosa” pelo ocorrido, disse que encontraria os responsáveis e os puniria. Ontem, quatro pessoas foram detidas, entre elas o proprietário do shopping.

Mas Putin evitou falar sobre o que muitos russos, entre eles os parentes das vítimas, acreditam ter sido a verdadeira causa do incêndio: um Estado corrupto e incompetente. ,

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Igor Vostrikov, que perdeu a mulher, três filhos e uma irmã no incêndio, resumiu o sentimento nas redes sociais. “Eu não tenho mais uma família. O regime dominante é culpado. Todo burocrata sonha em roubar como Putin. Todo funcionário do Estado trata as pessoas como lixo”, escreveu. “Investigadores encontrarão um bode expiatório e a questão será resolvida, mas a incompetência, corrupção generalizada, alcoolismo e degradação total da sociedade continuarão.”

Ontem, milhares de pessoas se reuniram na praça central de Kemerovo, pedindo ao governador regional, Aman Tuleyev, uma relíquia da era soviética, que renuncie e divulgue o número total de mortos, que muitos acreditam ser maior do que o número oficial. 

Tuleyev implorou perdão e acusou a oposição de explorar a tragédia. Ele ficou longe da praça onde ocorreu a manifestação. Seu vice, Serguei Tsivilev, visitou o local. Segundo o site de notícias Znak, ele foi recebido com gritos de “diga a verdade!” e “renuncie!”.

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