Jose Valle/EFE
Jose Valle/EFE

Expulsos por ciclones e atraídos por Biden, hondurenhos lideram nova caravana rumo aos EUA

Migrantes fogem de crise econômica, violência e devastação causada pelos furacões Eta e Iota

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 07h00

SAN PEDRO SULA, HONDURAS - Com o fim do governo Donald Trump, marcado pelo endurecimento de políticas de imigração, e em meio a crises econômicas, violência e devastação causada por furacões, hondurenhos começam a tomar estradas para tentar chegar aos Estados Unidos.

Convocada por meio de fóruns na internet, a primeira caravana do ano tem início seis dias antes da posse de Joe Biden, que acontecerá na quarta-feira, 20. Cerca de 300 pessoas se adiantaram e partiram nesta quinta-feira, 14, de San Pedro Sula, a segunda maior cidade do país, 180 quilômetros ao norte de Tegucigalpa. Outras 3 mil pessoas são esperadas nos próximos dias.

O grupo ruma para a fronteira com a Guatemala, por Corinto ou Agua Caliente. Além do país vizinho, a caravana também deve passar pelo México antes de chegar aos EUA. O percurso total pode chegar a 260 quilômetros. 

Algumas pessoas portavam a bandeira hondurenha e a maioria recebeu máscaras, exigidas como medida preventiva.

Crise geral

Emerson López vende bananas à beira de uma estrada de terra em La Lima, no norte de Honduras. Ele aguarda ansiosamente o “resultado” da primeira caravana.

“Se eles chegarem bem, a maioria de nós aqui vai tomar a decisão de sair depois”, disse à Agência France-Presse. 

La Lima, com 90 mil habitantes, ainda tem sinais da destruição causada pelos ciclones Eta e Iota em novembro. As enchentes provocadas atingiram Buen Samaritano, assim como várias comunidades do produtivo Vale do Sula, coração da economia do país. As plantações de banana da transnacional Chiquita, nos arredores da cidade, foram devastadas.

A casa de Emerson, onde ele mora com seus pais e quatro irmãos mais novos, foi atingida. E sem escola, fechada pelo coronavírus, ele perdeu a esperança de se formar em informática.

Com esse cenário, “eu teria que tomar a decisão de sair, como vou conseguir um emprego sem experiência e sem idade?”, questiona.

Martha Saldívar, vizinha de Emerson, também se prepara para marchar para os Estados Unidos.

“Soubemos que Biden vai remover o muro (que Trump estva aconstruindo na fronteira) e teremos que lutar” para chegar lá, diz a senhora de 51 anos, em frente a sua casa, ainda rodeada de escombros e sem um pedaço de telhado.

Tempestades tropicais e o fechamento por causa da covid-19 em 2020 custaram a Honduras, um dos países mais pobres da América Latina, cerca de 5 bilhões de dólares, segundo cálculos do governo. O número representa um quinto do PIB do país.

Além dos ciclones, o êxodo tem origem na pobreza extrema que assola o país. Hondurenhos lutam contra altas taxas de desemprego, violência de gangues e fortalecimento do tráfico de drogas.

‘Medidas sanitárias’

Enquanto o grupo avança, governos regionais tentam usar medidas contra o coronavírus como a última ferramenta para conter a migração.

Guatemala, Honduras, El Salvador e México emitiram uma declaração conjunta esta semana impondo medidas de saúde coordenadas para impedir a migração, incluindo exigência de testes negativos para o coronavírus em postos de controle de fronteira.

Especialistas em migração dizem que as medidas de saúde pública são parte de um esforço mais amplo das autoridades centro-americanas e mexicanas, sob pressão de Washington, para impedir os migrantes antes que eles cheguem aos EUA.

"A fronteira com os EUA está se movendo cada vez mais para o sul", disse o renomado ativista hondurenho de direitos humanos Ismael Moreno. “O objetivo (da polícia local) é deter os migrantes, seja por meio de repressão, ameaças, extorsão ou exigência de apresentar um teste de covid-19”.

"Quase não temos comida para comer, como eles acham que vamos pagar por esses testes (do coronavírus)?"  pergunta Ulises Santos, de El Salvador, de 29 anos, que espera se juntar à caravana. /AFP e REUTERS

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