Expurgo de políticos é rotina em Cuba

Regime evita ascensão de quadros que se destacam muito

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

05 de março de 2009 | 00h00

Eles são os "inimigos internos da revolução": ambiciosos demais, corrompidos até a alma, traidores da pátria. De tempos em tempos, o regime cubano realiza expurgos entre seus quadros dirigentes, derrubando, com essas justificativas, figuras emergentes no cenário político da ilha. Segundo analistas, parece ser esse o caso das destituições feitas nesta semana pelo presidente cubano, Raúl Castro. Entre os ministros que caíram na reforma de gabinete estão o chanceler cubano, Felipe Pérez Roque, de 43 anos, e o secretário executivo do Conselho de Ministros, o reformista Carlos Lage, de 57 anos. Ambos foram incluídos na lista dos possíveis sucessores de Fidel Castro quando o líder cubano renunciou, em 2008. "O mel do poder despertou (nesses ministros) ambições que os conduziram a um papel indigno", acusou Fidel, na terça-feira. "O inimigo externo encheu-se de esperanças com eles." Lage ainda manteve seu cargo de vice-presidente, mas ao que parece Pérez Roque terá de se conformar com uma cadeira na Assembleia Nacional. Sua destituição foi uma surpresa para os que acompanharam a ascensão do jovem engenheiro, desde os tempos do movimento estudantil até quando ele se tornou secretário pessoal de Fidel - e um de seus mais leais seguidores. Ironicamente, a trajetória de Pérez Roque não é muito diferente da de seu antecessor, Roberto Robaina, o "Robertico", que também foi líder universitário, membro da Juventude Comunista e próximo de Fidel. Figura carismática, Robaina era popular especialmente entre os jovens. Fora de Cuba, muitos o viam como sucessor de Fidel. Em 1999, porém, Robaina foi destituído por "falta de lealdade", egocentrismo e suborno"; e quatro anos mais tarde, ele foi expulso do Partido Comunista. Na época, chegou a dar uma entrevista à rede americana CNN - com a devida permissão do governo cubano - na qual admitiu ter cometido erros "éticos e políticos". Hoje dedica-se à pintura. "Líderes de regimes autoritários como o de Cuba não aceitam nenhuma ponta de concorrência", disse ao Estado Susan Purcell, especialista em Cuba da Universidade de Miami. "Esses expurgos fazem parte da dinâmica política que permite o continuísmo do regime."O caso mais notável é certamente o do general Arnaldo Ochoa, herói da Baía dos Porcos e chefe da missão militar de Cuba em Angola. Ochoa foi acusado de ter colaborado com o cartel colombiano de Medellín para montar um esquema de tráfico de drogas que passaria por Cuba. Em 1989, foi fuzilado junto com o coronel Antonio de la Guardia, ex-ministro do Interior. Segundo o governo cubano, Ochoa causou danos "ao prestígio da revolução e a sua credibilidade internacional". Os críticos do regime dizem que o general foi para o "paredón" porque era a única figura capaz de ameaçar a primazia de Fidel na ilha. "Não é à toa que Fidel conseguiu manter o poder por mais de 50 anos", disse ao Estado o americano Brian Latell, autor de Cuba sem Fidel (Editora Novo Conceito). "Eliminar essas possíveis ?ameaças? fez parte da estratégia que deu sustentação a seu governo."Os casos não param por aí. Em 1992, o chefe dos setores de propaganda do Partido Comunista, Carlos Aldana, foi destituído, acusado de "irregularidades". Até agora, nenhum processo formal foi aberto contra ele. O ministro de Transportes e vice-presidente Diocles Torralba e o ministro do Interior José Abrantes também caíram por "malversação de recursos". Em algumas situações, os ataques pessoais parecem esconder ineficiências do regime. Em abril, por exemplo, o ministro da Educação Luis Ignácio Gómez foi destituído em meio a uma grave crise do sistema de ensino. A justificativa de Fidel? "Gómez viajava demais."

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