Expurgos na China

Fatos estranhos continuam a ocorrer na China. Alguns falam de expurgo. Outros de acertos de contas. Outros ainda acreditam em "disputa selvagem pelo poder". O certo é que cabeças rolam ou correm o risco de tombar. E são cabeças muito próximas do "céu".

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2012 | 03h02

O céu é o Comitê Permanente do Politburo, composto por nove homens, os verdadeiros senhores da China. O comitê deve ser renovado nos próximos meses. E sete dos nove membros serão substituídos, entre eles o secretário-geral, que atualmente é o presidente da república, Hu Jintao.

É compreensível que as batalhas para ascender a esse santuário sejam na ponta da faca. Há alguns dias, um dos pretendentes a um posto no Comitê Permanente, o chefe de Chongqing - de 12 milhões de habitantes em sua área urbana -, Bo Xilai, foi afastado: um candidato a menos.

Além disso, a mulher dele foi acusada pela mídia oficial de ser responsável pela morte de um britânico que sabia muito sobre as atividades financeiras tenebrosas da família de Bo Xilai.

Um problema resolvido. Mas ontem ficamos sabendo que a Justiça agora está concentrada em outra presa, ainda mais grandiosa que Bo Xilai. Trata-se de Zhou Yongkang, que faz parte dos famosos "nove" e cuja carreira está em risco. Quem é ele? Zhou é o chefe do serviço secreto chinês. Ele detém o controle da Justiça e da repressão aos dissidentes. E do que é acusado? Oficialmente, será punido porque, em março, numa reunião secreta dos "nove", ele assumiu a defesa de Bo Xilai, que acabou de ser suspenso.

É possível também que Zhou Yongkang na realidade esteja sendo castigado por um pecado ainda mais grave, o pecado da corrupção. Por um pudor misterioso, Pequim não gosta de falar de corrupção.

Mas os internautas da China, que são numerosos e furiosos, não têm pudor e fornecem detalhes sobre as operações escabrosas desses altos dignatários.

Ficamos sabendo, por exemplo, que Zhou Yongkang desviou, com a ajuda do seu filho Zhou Bin, dezenas de milhões de dólares e possui em Pequim 18 propriedades, uma delas valendo US$ 33 milhões.

Quanto a Bo Xilai, cuja mulher é acusada de assassinato, os desfalques eram em família, dizem os internautas. Ele tinha um salário modesto, US$ 19 mil anuais. Para governar uma cidade de 12 milhões de habitantes, não é uma boa remuneração. Mas devia ser um gênio das finanças, pois sua fortuna chega a US$ 198 milhões.

A família era muito próspera. Suas quatro cunhadas, seu irmão Bo Xiyong e seu filho Li Wangzhi administram várias empresas no exterior. Bo Xiyong controla essas empresas no Caribe. Tem diversos passaportes e, de acordo com o dia, ele muda de nome, para Li Xueming, Brendan Li ou Li Xiaobai.

Zhou Yongkang sofrerá sanções duras ou humilhantes? Segundo os internautas, Pequim vai preferir uma solução mais discreta: daqui a alguns meses ele deverá se aposentar. Com que salário? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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