Lourival Sant'Anna/AE
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Extensão de ultimato a Kadafi divide rebeldes

Combatentes irritam-se com decisão de adiar prazo para que forças rivais se rendam, temendo fuga da cúpula do antigo regime

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / TAWARGA, LÍBIA

Os combatentes que cercam Sirte, a cidade natal de Muamar Kadafi, e Bani Walid, onde ele pode estar escondido, não entendem a decisão do Conselho Nacional de Transição (CNT) de adiar por uma semana o prazo final para que as forças leais ao ditador se rendam ou enfrentem a ofensiva dos rebeldes.

Num posto de controle rebelde no entroncamento entre as duas cidades, combatentes de Misrata, situada 60 km a oeste, disseram ao Estado: "Queremos ir logo. Estamos prontos para avançar sobre Sirte".

Os insurgentes, todos civis, manifestaram o temor de que Kadafi fuja. "Não podemos deixar que ele saia do país", disse Abdul Salam al-Bkoush, de 24 anos, resumindo o sentimento dos dez combatentes que se sentaram ao redor do repórter, numa tenda ao abrigo do sol de 42 graus à sombra. "Ele pode comprar armas, reagrupar suas forças e nos atacar de novo", continuou Al-Bkoush, que desde 2008 estuda economia em Nottingham, na Inglaterra, e veio há duas semanas para participar do esforço final contra o regime de Kadafi.

O KM 60, como é chamado o posto de controle, foi tomado pelos rebeldes no dia 15, depois de assumirem o controle sobre os arredores de Misrata e desocuparem o reduto kadafista de Tawarga, próximo dali. "Viemos limpando a área de Misrata até aqui", disse Salem Daghman, um taxista de 39 anos convertido em combatente. "Queremos continuar fazendo isso até Sirte, "casa a casa, rua a rua"", continuou, parafraseando Kadafi em seu discurso de fevereiro, no qual prometeu uma caçada implacável aos rebeldes.

A 50 km do posto de controle de Tawarga fica a última linha consolidada dos rebeldes, numa localidade chamada Washka, distante 130 km de Sirte. Al-Bkoush contou que há quatro dias eles estavam numa missão de patrulhamento em Washka, quando sofreram um ataque vindo de trás de um posto de gasolina na estrada. Quando se aproximaram, viram que havia famílias no posto. "Os kadafistas colocaram as famílias na frente como escudos", disse o combatente, repetindo uma acusação comumente feita às brigadas leais ao regime. Mesmo em Sirte, os rebeldes dizem que a ofensiva é dificultada pelo fato de os moradores terem sido impedidos de fugir pelas forças de Kadafi, elevando o custo humano da invasão da cidade de quase 100 mil habitantes.

À pergunta sobre se os moradores de Sirte estariam negociando uma rendição dos kadafistas, os rebeldes responderam: "Conosco não estão negociando". O Estado contou cerca de 20 combatentes no KM 60, apoiados por 3 caminhonetes com canhões de artilharia antiaérea de 14,5 mm montados nas carrocerias. Além das peças de artilharia, eles disseram ter "muitos" tanques e afirmaram que outros estão sendo preparados em Misrata para serem levados para a linha de frente. São provenientes da base de Zlitan, a 53 km de Misrata, que tinha 400 tanques quando foi tomada pelos rebeldes.

Os combatentes confirmaram ainda que as forças de Kadafi em Sirte detêm baterias de 40 foguetes Grad cada, montadas sobre caminhões. Saif al-Islam, filho de Kadafi que era preparado para substituí-lo, afirmou na quarta-feira que o regime tem 20 mil soldados em Sirte, dispostos a "lutar até a morte". É impossível verificar esse dado. Mas ninguém duvida de que uma eventual batalha por Sirte resultaria numa carnificina de ambos os lados.

Os 200 km que separam Trípoli de Misrata estão fortemente guardados pelos rebeldes, que mantêm dezenas de postos de controle. Na saída de Zlitan, os rebeldes estavam impedindo a passagem de todos os que não fossem moradores de Misrata ou combatentes.

 

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