REUTERS/Charles Mostoller
REUTERS/Charles Mostoller

Extensão do expurgo de Erdogan é muito ‘perigosa’, diz analista

Para especialistas, são grandes os riscos de a pena de morte voltar e de aumentar a perseguição a opositores

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

31 Julho 2016 | 05h00

Independente da autoria do golpe do dia 15, o professor de Estudos da Turquia Moderna na Universidade de Graz, na Áustria, Karabekir Akkoyunlu, vê as perseguições com preocupação. “O golpe dá ao governo espaço e legitimidade para fazer coisas que teria dificuldade para justificar”. Até hoje, 50 mil pessoas tiveram seus passaportes caçados, mais de 18 mil foram presas, 21 mil professores foram demitidos e 20 sites de notícias e 16 redes de TV foram fechados.

O movimento Hizmet afirma que a repressão aumentou, até mesmo fora da Turquia. “Colocaram placas nas lojas dizendo que integrantes do movimento não podiam entrar, divulgaram listas de empresários que integram o movimento e informaram as prefeituras para que nenhuma pessoa alugue casas, por exemplo, daqueles ligados ao movimento”, contou o jornalista turco Kamil Ergin, que vive no Brasil e integra o Hizmet.

O cônsul turco em São Paulo, Mehmet Ozgun Arman, reconhece que ocorrem alguns casos de perseguição pontuais na Turquia, mas nega que o governo tenha adotado uma posição autoritária. Para o professor Akkoyunlu, o perigo é que as perseguições não tenham limite. “Para o expurgo ocorrer apenas contra envolvidos no golpe, o processo jurídico precisa ser transparente. Infelizmente, as notícias de tortura e a vigência do estado de emergência mostram o risco de haver uma caçada contra as vozes críticas ao governo, não se limitando aos responsáveis pelo golpe.”

A discussão mais recente, que preocupa até o cônsul turco, é a volta da pena de morte. “Isso é perigoso e será um retrocesso para a Turquia”. Ozgun acredita, no entanto, que a medida não será aprovada.

"Isso é muito preocupante. Primeiro porque acaba com qualquer chance de a Turquia se tornar membro da União Europeia, mas pior do que isso, a pena de morte na ausência da Justiça pode ser usada como uma arma contra opositores por qualquer um que esteja no poder”, afirma Akkoyunlu. 

Presença no Brasil. O movimento inspirado em Fethullah Gulen está presente em diversos países. Segundo o grupo, existem mais de mil instituições de ensino não religiosas e patrocinadas por empresários locais, educadores e pais pelo mundo. 

No Brasil, o Hizmet é representado pelo Centro Cultural Brasil-Turquia (CCBT) e um colégio particular em São Paulo. Com a crise na Turquia, o presidente do CCBT, Mustafa Goktepe, explica que vários trabalhos estão sendo realizados no País. “Estamos fazendo trabalhos para tirar dúvidas da comunidade, fazemos entrevistas coletivas para as pessoas saberem o que está acontecendo na Turquia e já recebemos mensagens de apoio de alguns pais de alunos”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.