Extravagância e má educação, agora inimigas da China

Objetivo do Partido Comunista é melhorar a imagem das autoridades; Distrito de Sichuan ouve denúncias populares

SIMON DENYER, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2014 | 02h04

Não bajule seu chefe, não use gírias em discursos, não aja de maneira altiva e petulante e nunca fume ou palite os dentes em público. Esses itens estão incluídos numa lista de "dez comportamentos proibidos" que um condado no sudoeste da China emitiu recentemente para as autoridades locais. Um jornal da região exaltou o sucesso da iniciativa, provocando uma enxurrada de piadas e farpas online.

Campanhas para melhorar o comportamento de quadros do Partido Comunista com regras e diretrizes são quase tão velhas como o próprio partido. Mas esse esforço foi prontamente organizado e sustentado desde que Xi Jinping assumiu a secretaria-geral do PC em novembro de 2012 e a presidência do país em março do ano seguinte.

Procurando reformar a imagem do partido e melhorar sua própria posição, Xi lançou uma grande iniciativa em dezembro de 2012 para diminuir a extravagância oficial e reduzir a burocracia, enquanto líderes partidários recebiam ordens para se reconectar com as bases.

Seguiu-se uma ambiciosa campanha anticorrupção, no ano passado, em que Xi prometeu eliminar tanto os "tigres" quanto as "moscas" - as autoridades graúdas e as miúdas - que estivessem desviando dinheiro público. As campanhas de Xi deixaram muitos dirigentes inquietos, temendo a investigação das equipes disciplinares do partido e também a exposição nas mídias sociais ou nos meios de comunicação.

O Condado de Pengshan, um distrito de 340 mil habitantes na Província de Sichuan, parece ter levado a mensagem ao pé da letra, quando tratou de saber exatamente o que seus dirigentes estavam fazendo de errado para corrigir sua prática. Apoiado em 1,7 mil sugestões colhidas de sondagens de opinião pública, simpósios, investigações e entrevistas, o comitê do partido do condado emitiu no fim de fevereiro uma lista de dez práticas comuns proibidas dali em diante. Entre elas, atirar lixo pela janela do carro, estacionar em locais proibidos, delegar a outros a assinatura de documentos próprios e fazer promessas vazias para as multidões. Intimidar pessoas ou fazê-las carregar suas malas, abrir sua porta do carro ou servir seu chá também são atitudes censuradas. Praguejar e apontar dedos para pessoas estão vetadas, assim como dizer "não me pergunte" quando alguém faz uma pergunta.

O Diário Metropolitano Huaxin afirmou que o esforço havia surtido efeito. Mas essa reportagem foi recebida com expressões de menosprezo e desespero na mídia social chinesa.

Senso comum. "São boas maneiras básicas", escreveu um usuário do microblog Sina Weibo, referindo-se às recomendações implícitas sobre como tratar pessoas. "Mas as autoridades não conseguem tê-las. Como essas pessoas de tão baixo calão podem ser dirigentes a serviço do povo?"

"Eles precisam aprender coisas tão simples?", admirou-se outro usuário. "Esses dirigentes deviam voltar para a escola primária." "Parece engraçado, mas é muito triste quando se pensa nisso", disse outro. "Muitas dessas dez proibições são regras morais básicas de seres humanos. Esses quadros não são humanos? Só uma explicação dessa faz sentido."

Zhou Xiaozheng, sociólogo na universidade chinesa de Renmin, disse ser lamentável que muitos quadros tenham se comportado mal desde a fundação da China moderna e, em especial, desde a Revolução Cultural do fim dos anos 60.

"Naquela época, as pessoas não só não se envergonhavam de praguejar, como se orgulhavam disso - e se orgulhavam de ser incultas", afirmou. De acordo com o analista, a "luta de classes" era sempre mais importante do que ser civilizado, enquanto que hoje, a maior prioridade é a prosperidade pessoal. "Vamos encarar os fatos, esse pequeno condado tem a coragem de enfrentar a realidade", disse, a respeito de Pengshan.

Russell Leigh Moses, diretor do Centro de Estudos da China em Pequim, descreveu a campanha de Pengshan como uma extensão do esforço mais amplo de Xi. "Historicamente, sempre que o Partido Comunista está preocupado com sua imagem e sua operação, tende a produzir instruções e recomendações. Com isso, mostra como leva a sério o comportamento oficial", afirmou.

Essas campanhas podem não ter produzido resultados duradouros no passado, mas poderão ser mais eficazes desta vez, comentou. "O esforço de Xi é mais uma cruzada do que uma campanha", acrescentou Moses, ressaltando que uma série de recomendações e instruções havia sido emitida. "O fato de eles (os dirigentes do PC) terem uma mensagem consistente para os quadros num fluxo quase contínuo significa que estão sendo sérios e essa iniciativa não é isolada." O empenho de Xi na austeridade já parece ter afetado a economia chinesa, reduzindo a procura por uma série de produtos, de bebidas alcoólicas a marcas de luxo, como Prada.

Banquetes extravagantes foram proibidos, prejudicando o setor de produtos finos - além de proporcionar um alívio para os tubarões do mundo, que vinham sendo mortos em quantidades imensas para suprir a China da anteriormente tão prestigiada sopa de suas barbatanas. Até agentes funerários relataram uma queda nos lucros depois que foram emitidas instruções para evitar cerimônias grandes e ostentatórias.

Apesar de o governo continuar reprimindo dissidentes - e ter prendido um grupo de ativistas de direitos civis que ousou pedir que dirigentes de alto escalão revelassem seus bens - parece estar havendo um esforço interno do partido para reformar. As queixas, embora permitidas, devem ser feitas pelos canais oficiais.

O governo de Pengshan criou um endereço de e-mail e uma linha telefônica para quem queira denunciar autoridades que ignoraram as novas regras e ainda encorajou cidadãos a tirar fotos de infratores com seus smartphones. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

SIMON DENYER É CORRESPONDENTE

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