Odd ANDERSEN / AFP
Odd ANDERSEN / AFP

Extrema direita alemã amplia atos contra imigrantes

Manifestantes que pedem a expulsão de estrangeiros da Alemanha seguem protestando na Saxônia, enquanto esquerda radical cria um novo movimento anti-imigração e xenófobo para tentar conter o crescimento dos neonazistas

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2018 | 20h56

A onda contra imigrantes na Alemanha recebeu novo impulso na cidade de Chemnitz, onde duas novas manifestações de extrema direita, uma realizada nesta quinta-feira, 30, e outra prevista para o sábado, pressionam o governo da chanceler Angela Merkel pela expulsão de estrangeiros. 

Os protestos e a ascensão do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) se somam ao racha da legenda de esquerda Die Linke, cujo cisma está dando origem a um novo movimento de esquerda radical e xenofóbico, o Levante-se! 

Os protestos contra imigrantes ganharam nova dimensão no domingo, em Chemnitz, após o assassinato a facadas de um homem de 35 anos e a prisão de dois suspeitos, refugiados, um iraquiano, de 22 anos, e um sírio, de 23. O caso provocou confrontos entre militantes e a polícia. A cidade é conhecida como bastião da extrema direita alemã, onde grupos radicais pregam “a caça” aos imigrantes.

Depois dos incidentes de domingo e segunda-feira – quando 20 pessoas ficaram feridas –, uma nova manifestação foi realizada ontem, quando entre 1 mil e 2 mil ativistas voltaram a pedir a expulsão dos estrangeiros.

Para evitar o risco de confrontos, centenas de policiais foram mobilizados para fazer a segurança do protesto, que acabou sem incidentes. A manifestação ocorreu diante do local em que autoridades realizavam um evento de cidadania contra o discurso racista. 

O ato pró-imigrantes foi organizado para confrontar o discurso de rejeição da extrema direita e levar a público uma imagem mais tolerante da Alemanha. Na segunda-feira, um concerto contra o racismo e em memória das vítimas do nazismo será realizado na cidade.

Antes disso, porém, uma marcha fúnebre foi marcada para sábado em Chemnitz em memória da vítima do crime – o que para os ativistas de extrema direita será uma nova oportunidade de reivindicar o fechamento das fronteiras.

A tensão social chamou a atenção da Europa e obrigou Merkel criticar a atitude dos grupos xenofóbicos e neonazistas. A credibilidade da chanceler, porém, está em baixa. Ela é acusada pela oposição de ter aberto as portas do país aos imigrantes durante a crise dos refugiados, em 2015. 

As críticas a Merkel têm favorecido o AfD, partido que cresce a ponto de ameaçar o segundo lugar do Partido Social-Democrata (SPD) nas eleições regionais da Baviera e de Hesse, marcadas para outubro. Em ambas, a coalizão entre União Democrata-Cristã (CDU), de Merkel, e União Social-Cristã (CSU) deve perder espaço. 

A mobilização anti-imigração na Alemanha, porém, não se restringe à extrema direita. Nas últimas semanas, um movimento de esquerda radical, o Levante-se!, vem sendo articulado pela deputada Sahra Wagenknecht, dissidente do Die Linke, com um discurso contrário aos estrangeiros. A legenda será oficialmente lançada na terça-feira e terá como bandeira o fechamento das fronteiras alemãs aos estrangeiros.

O grupo, inspirado no partido francês França Insubmissa e no movimento trabalhista britânico Momentum, aposta na denúncia da política imigratória de Merkel para crescer – ainda que o partido Die Linke permaneça defendendo os refugiados. 

Além de Wagenknecht e de seu marido, o ex-líder social-democrata Oskar Lafontaine, um dos idealizadores do movimento de esquerda é o economista Wolfgang Streeck, crítico do que chama de “política migratória liberal”. 

“Wagenknecht e Lafontaine têm enfatizado com frequência seus desejos de pararem o crescimento do AfD e reconstruir uma maioria de esquerda na Alemanha”, diz Manès Weisskircher, pesquisador do European University Institute de Dresden. 

De acordo com pesquisas divulgadas após o anúncio da formação do Levante-se!, 34% dos alemães consideram a hipótese de votar em candidatos do novo movimento de esquerda radical e xenofóbico.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.