AFP PHOTO / GIUSEPPE CACACE
AFP PHOTO / GIUSEPPE CACACE

Extrema direita alemã avança com discurso anti-imigração

Vitória do partido AfD nas eleições representaria duro revés a Merkel, um ano após chanceler abrir o país aos refugiados

O Estado de S. Paulo

01 de setembro de 2016 | 20h34

Um ano depois da decisão da Alemanha de abrir as fronteiras aos refugiados, duas eleições regionais podem marcar o avanço da extrema direita no país, o que seria um grande revés para a chanceler Angela Merkel.Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental (nordeste), a circunscrição de Merkel, vai às urnas no domingo para renovar o Parlamento regional.

A votação coincide com o primeiro aniversário da decisão da Alemanha e da Áustria, em 4 de setembro de 2015, de abrir suas fronteiras a dezenas de milhares de migrantes bloqueados no leste da Europa. A capital, Berlim, que tem status de Estado-região, vai definir sua assembleia local em uma eleição em 18 de setembro.

Após a chegada de um milhão de demandantes de asilo e dois atentados reivindicados em julho pelo grupo Estado Islâmico, as eleições devem antecipar o que aguarda a chefe de governo conservadora, um ano antes das próximas legislativas.

Apesar da crescente popularidade do partido anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD), Merkel não se arrepende da decisão de 2015, que chama de “dever humanitário”.

Mas o entusiasmo do povo alemão, que em um primeiro momento recebeu os migrantes nas estações de trem, deu lugar a uma realidade contrastante: a de um país onde a mobilização de voluntários continua muito forte, mas onde paralelamente a inquietação é cada vez maior.

Tanto na Europa quanto na Alemanha, várias vozes acusam Merkel de ter provocado um efeito manada, que deve atrair mais migrantes, desestabilizando seu país e a UE. Com a chegada de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças em fuga da guerra e da pobreza, surgiram “novos temores” na maior economia europeia, o que provocou uma “guinada à direita” no debate político, diz Gero Neugebauer, da Universidade Livre de Berlim.

Os atentados de julho concluíram a inclusão da “segurança interna e da luta contra o terrorismo” como principal preocupação, segundo uma pesquisa de Deutschlandtrend divulgada pelo canal ARD.

A popularidade de Merkel, que permanecia estável apesar de 11 anos de poder, caiu drasticamente: 75% em abril de 2015, 45% no mês passado. Por esse motivo, segundo a imprensa, Merkel adiou o anúncio de sua candidatura para um novo mandato.

Apesar de fragilizada, Merkel não tem no momento nenhum rival a sua altura. Mas se seu partido, CDU, registrar uma votação ruim em Mecklemburgo isso seria um golpe duro, já que este é o reduto eleitoral da chanceler.

No nível federal e local, o cenário político já mudou, com a entrada em metade dos 16 parlamentos regionais do AfD, que conseguiu avançar como nenhum outro partido de direita havia conseguido desde a guerra.

Com pesquisas que apontam 14% das intenções de voto em Berlim e até 23% em Mecklemburgo, a AfD influencia a pauta dos grandes partidos, o que leva certos líderes a endurecer os discursos, incluindo alguns dentro do grupo social-democrata, aliado de Merkel e em queda livre nas sondagens. O líder do Partido Social-Democrata (SPD), Sigmar Gabriel, afirmou que a chanceler “subestimou” o alcance do desafio migratório.

A AfD, criada em 2013 com uma plataforma contrária ao euro, adaptou seu discurso aos temores atuais. No ano passado, adotou uma linha anti-imigração, que após o fechamento da rota dos Bálcãs se transformou em um programa contrário ao Islã.

O partido consegue mobilizar pessoas que optariam pela abstenção, mas também conquista votos entre os eleitores de todo o leque político, da esquerda radical do Die Linke aos neonazistas, passando pelos liberais do FDP, segundo o instituto DIW. / AFP

 

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