Omer Messinger / AFP
Omer Messinger / AFP

Extrema direita alemã usa crimes de estrangeiros para divulgar sua mensagem

Em 2018, apesar de o país registrar o menor índice de criminalidade desde a reunificação, em 1990, 38,6% dos 'atos criminosos violentos' foram cometidos por estrangeiros; especialistas alertam para notícias falsas associadas aos casos

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2019 | 15h18

COTTBUS, ALEMANHA - "Os refugiados trazem o crime para a cidade", afirma um panfleto eleitoral na Alemanha, onde a extrema direita usa cada acontecimento que envolve estrangeiros como propaganda de seus ideais - uma forma eficaz de divulgar seu discurso em um país politicamente afetado pela chegada de mais de um milhão de migrantes.

O partido Alternativa para a Alemanha (AfD, em alemão) pretende repetir nas eleições europeias a fórmula que desde 2017 ajudou a formação a virar a maior força de oposição no Parlamento federal, em um país no qual a extrema direita era quase inexistente desde a 2ª Guerra.

"A Alemanha não pode continuar recebendo migrantes", disse Jorg Meuthen, primeiro nome da lista da AfD para as eleições ao Parlamento europeu. "Os ataques com faca, estupros e violência contra as mulheres são cometidos proporcionalmente mais por pessoas procedentes da cultura muçulmana que por 'pessoas daqui'", afirma.

De acordo com dados da polícia, 38,6% dos "atos criminosos violentos" em 2018 foram cometidos por estrangeiros. Ao mesmo tempo, o índice de criminalidade registrou o menor índice desde a reunificação da Alemanha, em 1990.

"Cada acontecimento com o envolvimento de estrangeiros, sobretudo migrantes, é exagerado e generalizado", afirma Miro Dittrich, da fundação de combate ao racismo Amadeu Antonio.

Notícias falsas

O ponto de partida do estímulo à extrema direita nacional foram as agressões sexuais de dezenas de mulheres na noite de Ano Novo de 2015 em Colônia, atribuídas em sua maioria a jovens demandantes de asilo, um momento que chocou o país.

Dois anos depois aconteceu o assassinato, a punhaladas, de uma adolescente alemã de 15 anos por seu ex-namorado, afegão, em uma loja Kandel. Durante meses, o braço local do AfD organizou protestos nesta pequena cidade do oeste do país para denunciar a política migratória da chanceler Angela Merkel.

O assassinato com arma branca de um alemão em Chemnitz, na região da Saxônia, em agosto de 2018, foi mais um caso usado pelo AfD. Um solicitante de asilo sírio está sendo julgado atualmente por este crime. A Saxônia é um reduto do AfD, que saiu às ruas diversas vezes para protestar contra os migrantes.

Os crimes já citados realmente aconteceram, mas outros foram completamente inventados para alimentar um clima de ansiedade e apresentar todos os demandantes de asilo muçulmanos como potenciais assassinos ou estupradores.

Um blog de extrema direita apresenta a vida das mulheres alemãs "desde a invasão", marcada por agressões sexuais e assassinatos. Um texto afirma que o corpo de uma mulher foi jogado em uma vala, depois que ela foi violentada por um migrante.

A história, retuitada milhares de vezes, era parcialmente falsa, pois o suspeito foi rapidamente identificado como um parente da vítima. A polícia da região acusa o partido de divulgar "notícias falsas incendiárias, infames e simplistas".

Queda nas pesquisas

"É um método antigo de comunicação: a mensagem não é importante, no fim sempre fica algo na cabeça das pessoas", afirma Dittrich.

Em Chemnitz e em Cottbus, os eventos do AfD exibem uma colagem de fotos que afirma mostrar 16 mulheres que foram "agredidas" na Europa por "migrantes" ou "muçulmanos", apesar da informação ser falsa.

"Na minha opinião, as imagens eram de mulheres vítimas de ataques", declara Christoph Berndt, representante da associação patriótica Zukunft Heimat, que organiza manifestações mensais em Cottbus para pedir ao governo o "fechamento das fronteiras".

Para ele, o temor de boa parte da população de uma invasão por migrantes muçulmanos é muito real.

As repetidas campanhas sobre a criminalidade dos imigrantes rendem dividendos políticos para o partido. Durante muito tempo estimularam a formação, mas parece que o efeito não dura a longo prazo: a AfD aparece com entre 10 e 11% de apoio nas pesquisas recentes, contra 15% há seis meses. / AFP

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