Extrema direita assusta a Áustria

Há alguns anos, a Áustria fez tremer a Europa porque um agitador de extrema direita, sedutor e talentoso, Joerg Haider, admirador de Hitler, obteve 28% dos votos nas eleições locais, em Viena, a capital. O tempo passou. Há dois anos, Haider morreu num acidente de carro. Pensou-se que o surto extremista austríaco não passara de um fogo de palha, que Viena, desde 1919 a capital da social-democracia, finalmente tivesse se livrado da "peste negra. Ledo engano.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2010 | 00h00

No domingo, em Viena, o candidato da extrema direita Heinz-Christian Strache, do Partido da Liberdade da Áustria, de Haider, conseguiu 27% dos votos nas eleições regionais, quase o mesmo resultado do antigo líder.

Não é uma situação agradável para a Áustria. E a preocupação é ainda maior porque o crescimento dos extremistas não é uma exceção. Toda a Europa assiste ao avanço da mesma onda obscura: há três semanas, a Suécia, país moderado e social-democrata, permitiu o ingresso dos populistas de direita no Parlamento, pegando a opinião pública totalmente de surpresa.

Os neofascistas avançam em toda a parte. Em feudos social-democratas, como Noruega, Dinamarca, Holanda. Na Europa Central, na Hungria. E, desde domingo, na Áustria. Na França, Nicolas Sarkozy assume posições cada vez mais autoritárias. Na Itália, Silvio Berlusconi foi atropelado pela Liga Norte.

Certamente, as epopeias fascistas são uma velha mania da Europa. No entanto, há uma novidade: hoje, o que alimenta a extrema direita é o Islã. É a islamofobia que serve de combustível para as paixões extremistas. Na Áustria, Strache baseou sua campanha no ódio aos muçulmanos. "Segurança para as mulheres livres", proclamavam seus cartazes, em alusão ao uso do véu e da burca.

Na Suíça, em novembro, um plebiscito proibiu a construção de novos minaretes. Em Amsterdã, os extremistas se preparam agora para lançar uma liga europeia anti-Islã. As formações anti-islâmicas adquiriram uma audiência tão grande que os outros partidos são, muitas vezes obrigados a se aliar aos exaltados para governar.

É o que ocorre na Dinamarca, onde o governo liberal-conservador está condenado a uma união com o Partido Popular. Na Holanda, liberais e democratas-cristãos não podem prescindir do apoio dos islamófobos de Geert Wilders. Em um movimento semelhante, a Al-Qaeda mata e sequestra em nome de Deus, como para dar razão aos anti-islâmicos. É a velha cumplicidade, que percorre todo o curso da história, entre os extremistas de todas as colorações. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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