Extrema direita conquista espaço na Ucrânia em meio à crise política

Milícias formadas por ultranacionalistas e neonazistas convivem com manifestantes moderados que ocupam Kiev, exigindo que o presidente retome aproximação com a UE

Andrei Netto - Enviado especial para O Estado de S. Paulo,

02 Fevereiro 2014 | 02h03

Os 72 dias de movimento popular contra o presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, arrastaram às ruas uma multidão com objetivos comuns, mas de composição heterogênea. Ao lado de uma maioria sem partido ou de militantes políticos moderados, favoráveis à maior aproximação com a União Europeia, também protestam movimentos extremistas ultranacionalistas e neonazistas, cujas milícias circulam pela Praça Independência, no centro de Kiev.

Esses grupos são o lado sombrio da "EuroMaidan" - ou "Europraça", como o protesto na Ucrânia é chamado por ucranianos e russos. Distantes da maioria de jovens e adultos de classe média, em cujos discursos aparecem termos como democracia, liberdade e direitos humanos, as milícias radicais pregam bandeiras bem menos nobres, várias delas ligadas ao nacional-socialismo de Adolf Hitler.

Não é difícil encontrar entre as barricadas construídas em torno dos principais acessos à praça homens vestindo uniformes militares ou portando bastões de beisebol, com os quais patrulham os acampamentos para "garantir a segurança" do movimento. Eles são parte das milícias de partidos nanicos e movimentos de extrema direita que florescem na Ucrânia e ganharam espaço no cenário político com a crise de Yanukovich.

Entre os grupos radicais, o mais conhecido é o Praviy Sektor, uma organização recente, espécie de federação de grupelhos extremistas ucranianos. Militantes dessa entidade assumiram papel de destaque nos choques com a polícia acontecidos em 22 de janeiro, quando o número de mortes nas manifestações chegou a cinco, agravando a crise política.

Mas sua atuação violenta contra a tropa de choque, a Berkut, remonta a 30 de novembro, véspera da ofensiva dos militantes contra prédios públicos.

No seio desse movimento, apontam cientistas políticos ucranianos e russos, estão integrantes de organizações como os Patriotas da Ucrânia, o Trizub, o Beli Molot, a Assembleia Social-Nacional e a UNA-UNSO, todos de inspiração radical. Não raro, são compostos pelos mais fanáticos membros de torcidas organizadas de clubes locais, como o Dínamo de Kiev.

O governo Yanukovich os considera clandestinos e os acusa de envolvimento com atividades terroristas. Esses grupos são conhecidos desde os anos 1990 por ativismo ultranacionalista ou neonazista.

É o caso do partido Svoboda, ou Liberdade, presente no Parlamento e liderado pelo deputado Oleg Tyagnibok, célebre por declarações russófobas e antissemitas. Partido nanico até o início do século, quando tinha 1% de votos, ele agora reúne 10,5% do eleitorado - ou 2 milhões de ucranianos -, sendo a quarta força política do parlamento nacional.

Os 37 parlamentares eleitos pelo Svoboda conseguiram entre 30% e 40% de seus votos no oeste agrícola do país, onde se fala ucraniano, e o partido não chegou a alcançar 1% no leste, onde o russo predomina, assim como a atividade industrial.

Essa é a mesma divisão que separa o país entre os partidários de Viktor Yanukovich e ex-premiê Yulia Tymoshenko, hoje presa por corrupção. Gráficos do resultado da eleição de 2010 mostram a mesma clivagem entre leste, considerado pró-Rússia, e oeste, pró-Europa, onde também estão as organizações extremistas.

Os grupos minoritários hoje se juntam à contestação de massa impulsionada pelos dois maiores blocos parlamentares de oposição no país, o BIouT, de Yulia, e o Oudar, o partido liberal liderado pelo ex-campeão de boxe Vitali Klitschko.

A presença de extremistas, no entanto, não incomoda a maioria, que vê nos grupos radicais um apoio ao movimento de contestação. "Quem está na praça são os insatisfeitos com a situação do país. Não nos perguntamos de que grupo somos, porque temos uma causa em comum. Estamos lutando pela liberdade e contra a corrupção", diz Roman Berezhnov, barman de 24 anos, natural de Lviv.

Iura Dubenski, 26, diretor de vendas de uma empresa, pensa da mesma maneira. "Na praça, estão todos os ucranianos".

Militantes como Alex Krusta, de 58 anos, são a exceção. Empresário, acampou na praça Independência lado a lado com os grupos ultranacionalistas, mas isso não significa que aprove seus discursos.

"Estou na praça há três meses e vou continuar", assegura. "Mas estou para brigar para que o próximo governo, que será eleito democraticamente, respeite os direitos humanos e respeite a todos os cidadãos."

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