Robert Pratta/Reuters
Robert Pratta/Reuters

Extrema direita da França defende CIA

Líder em pesquisas para eleição presidencial de 2017, Marine Le Pen considera 'útil' técnica de interrogatório da agência

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2014 | 02h01

Marine Le Pen, deputada europeia e líder do partido de extrema direita Frente Nacional, da França, defendeu ontem o uso da tortura em ações contra o terrorismo. A manifestação foi feita após a revelação do relatório sobre as violações de direitos humanos cometidas pela CIA na luta contra o terror pós-11 de Setembro.

As declarações de Le Pen foram feitas em meio a entrevista à rede BFM TV, de Paris. Indagada sobre o relatório a respeito da prática de torturas pela CIA, a extremista se solidarizou com a política empreendida pelo governo de George W. Bush até 2007. "Não condeno. Sobre esse assunto, é muito fácil vir a um estúdio de TV e dizer que não é correto", afirmou. O apresentador então perguntou se a tortura pode ser empregada pelas forças de ordem. Marine Le Pen respondeu: "Sim, claro. E foi utilizada ao longo da história".

Le Pen continuou: "Creio que pessoas que lutam contra o terrorismo e devem obter informações permitam salvar vidas civis são pessoas responsáveis". "Pode haver casos, quando uma bomba deve explodir em uma ou duas horas e pode fazer 200, 300 vítimas civis, em que é útil fazer uma pessoa falar", sustentou. Questionada se isso incluía a prática da tortura, a extremista respondeu: "Os meios disponíveis".

As declarações provocaram uma onda imediata de críticas na França, mas a reprovação não impediu que o deputado Gilbert Collard, também da Frente Nacional, reiterasse o apoio à tortura, que definiu como "um último recurso" que "permite salvar vidas". "É verdade que a tortura deve ser o último recurso quando for preciso salvar vidas. A tortura pela tortura é ignóbil, mas é uma covardia dizer 'Pena que inocentes morram, mas eu tenho as mãos limpas'", afirmou Collard, advogado célebre no país. "Não podemos ser a favor da tortura, mas, em determinado momento, há um problema de escolha: deixar morrer inocentes, ou fazer o que pudermos para saber onde está a bomba. Cada um responde com sua consciência."

Ameaçada de processo por "apologia da tortura", Marine Le Pen voltou atrás horas depois, primeiro com um tuíte, dizendo estar sendo alvo de "interpretações mal-intencionadas". À tarde, em nova entrevista, a extremista disse: "Sou contra a tortura. A situação do terrorismo é extremamente complicada. Nós devemos usar todos os meios para enfrentá-lo", disse ela, ressaltando: "Todos os meios legais".

As declarações causaram reações duras no Parlamento. Alain Tourret, deputado do Partido Radical de Esquerda, da base do governo de François Hollande, pediu a abertura de um processo contra a deputada europeia. "É a primeira vez desde a guerra da Argélia que um responsável político se expressa dessa forma", afirmou Tourret.

Filha e herdeira política do decano racista, antissemita, islamofóbico e xenófobo Jean-Marie Le Pen, Marine é a favorita nas pesquisas de opinião para as eleições presidenciais de 2017, à frente do atual presidente, François Hollande, e do ex, Nicolas Sarkozy. Sob seu comando, o partido obteve a maior votação das eleições ao Parlamento Europeu em 2014 e encabeça uma coalizão de partidos extremistas no Legislativo do bloco, com sede em Estrasburgo.

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