Jim Urquhart/REUTERS
Jim Urquhart/REUTERS

Extrema direita dos EUA ganha corpo literário

O que a leitura de trumpistas, supremacistas brancos e neonazistas nos dizem sobre o extremista americano

The Economist, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2021 | 05h00

Pandemias têm efeitos colaterais inesperados. Um deles, de acordo com um relatório emitido no ano passado pelo Federal Reserve de Nova York, pode ser um surto de apoio a pensamentos extremistas. O levantamento observou como números excepcionalmente altos de eleitores das cidades alemãs que sofreram mais mortes por influenza até 1920 votaram em partidos da extrema direita, como o Nazista, no início da década de 30. 

No ano passado, de acordo com estudos realizados no Reino Unido e nos Estados Unidos, também houve uma explosão nas buscas online por conteúdo extremista. Insatisfação em relação aos confinamentos e restrições ou perda de confiança no governo poderiam motivar a nova curiosidade.

Quais textos as pessoas têm procurado? Pesquisadores estudam os hábitos literários da extrema direita monitorando listas de leituras trocadas nas redes sociais, textos promovidos em podcasts ou recitados por entusiastas como audiolivros no YouTube, produtos de editoras direitistas e, mais ao extremo, os discursos que servem como manifesto para quem comete atrocidades.

Juntos, esses elementos indicam a existência de várias linhas de textos de ódio. Brian Hughes, da American University, em Washington D.C., afirma que o mero fato de a ideologia radical estar disponível online é, em parte, “responsável pelo elevado índice de mobilização extremista”.

Escritores franceses têm sido notavelmente influentes, incluindo autores da “Nouvelle Droite” (Nova Direita). Alain de Benoist, um pensador intolerante, inspirou membros do movimento alt-right nos Estados Unidos, como Richard Spencer, um supremacista branco. 

As obras de um filósofo, Jean Renaud Gabriel Camus, também se sobressaem. Pensamentos retirados de seu livro A Grande Substituição, de 2011, são repetidos frequentemente por quem afirma que a imigração de não brancos ameaça os países ocidentais. O livro foi citado por alguns que cometeram massacres.

A obra de outro escritor francês, Jean Raspail, é defendida por ativistas anti-imigração nos Estados Unidos. Seu distópico romance de 1973, O Campo dos Santos, vislumbra uma violenta conquista da França por imigrantes de pele marrom. Trata-se de uma “releitura transformada em arma” de uma parábola bíblica e apocalíptica, afirma Chelsea Stieber, da Universidade Católica de Washington, DC. “Os franceses entendem isso como literatura”, afirma ela, enquanto que, nos Estados Unidos, “isso se torna uma realidade plausível”. 

Segundo Stieber, líderes republicanos promoveram a obra, entre eles Steve Bannon e Stephen Miller, ambos assessores de longa data e próximos de Donald Trump, assim como Steve King, um nefasto ex-congressista do Iowa.

Textos apocalípticos são especialmente populares entre uma linha da extrema direita conhecida como “aceleracionista”, cujos adeptos acreditam que a civilização (ou pelo menos a democracia liberal) logo desmoronará. Eles esperam que seja possível acelerar o fim por meio de ações violentas ou até uma guerra civil. 

Nessa veia, um escritor fascista italiano, Julius Evola, também é citado por Bannon e Spencer – e louvado em círculos da extrema direita, por apelar ao público que “mande tudo pelos ares”. Ele promoveu a ideia do homem heroico, que “se eleva acima” da história (Mussolini era fã). Memes do autor com seu monóculo são compartilhadas online pelos fãs.

Extremistas voltam-se para esses escritores porque eles justificam o uso da violência como forma de abrir caminho para uma suposta nova era dourada que estaria prestes a começar. Outros autores explicam como atingir essa meta. Siege, um livro de James Mason, do Partido Nazista Americano, tem como propósito servir de guia para a revolução violenta. Graham Macklin, do Centro para Pesquisa sobre Extremismo, em Oslo, nota que a obra teve pouco impacto quando foi publicada, em 1992. 

Mas seu redescobrimento pelos neonazistas, há cerca de cinco anos, levou a um aumento no interesse. PDFs do livro agora são amplamente compartilhados online; a hashtag “readSiege” se espalha periodicamente nas redes sociais. “Agora o livro está em todo lugar”, afirma Macklin.

O estudo desses textos é importante, mesmo que algum pesquisador admita ter “ânsia de vômito” quando encara trechos especialmente violentos ou cruéis. Pensamentos podem ter consequências mortíferas, afirma Joanna Mendelson, da Liga Antidifamação. “Pessoas estão citando e recomendando livros como reafirmação e validação de suas visões extremistas”, afirma ela. Muitas dessas obras reaparecem repetidamente entre facções antissemitas e defensoras de outros tipos de extremismo.

Algumas delas – como Os Protocolos dos Sábios de Sião (uma teoria de conspiração antissemita originada na Rússia, em 1903) ou os textos racistas e eugênicos de Lothrop Stoddard, dos anos 1920 – são repetidamente redescobertas ou reinterpretadas por novos escritores. O que antes era chamado de eugenia, por exemplo, é descrito atualmente com a roupagem de “realismo racial”.

Um livro ainda é considerado a “bíblia” da extrema direita. O Diário de Turner, um romance quase ilegível da década de 1970, de William Pierce, outro membro do Partido Nazista Americano, imagina uma insurreição liderada pela “Ordem”, um movimento contra o governo que promove valores igualitários e controla acesso a armas de fogo. Estima-se que 500 mil cópias tenham sido vendidas. 

Um leitor voraz foi Timothy McVeigh, que explodiu um prédio do governo federal em Oklahoma City, em 1995, matando 168 pessoas (ele usou um caminhão repleto de fertilizante e explosivos, um método descrito no livro). Outros encontraram a inspiração para formar um grupo paramilitar na vida real, também chamado de “Ordem”.

Jared Holt, que pesquisa extremismo doméstico no Atlantic Council, em Washington, afirma que esses livros ainda são muito poderosos. Membros veteranos dos grupos passam as obras para os jovens. Os livros são usados para criar laços entre os adeptos, testar os recém-iniciados e aliviar a “ansiedade” de alguns, dando-lhes um senso de propósito para suas vidas. Ele ressalta, também, que jovens leitores estão encontrando novas obras. 

Um desconexo livro autopublicado chamado Bronze Age Mindset (Mentalidade da Idade do Bronze, em tradução livre), por exemplo, ganhou vários seguidores, incluindo, segundo relatos, membros da equipe de Trump na Casa Branca. A obra se vale de pensamentos de Nietzsche e fala para os leitores se prepararem para o governo militar prestes a se iniciar nos Estados Unidos. Para alguns, essa literatura colérica é atraente. Descobrir o porquê é um primeiro passo para combatê-la. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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