Extrema direita e extrema esqueda marcham cara a cara em Buenos Aires

Os aposentados que costumam assistir o pôr-do-sol e as senhoras que passeiam com seus poodles na elegante e plácida praça San Martín tiveram que alterar sua rotina nesta quinta-feira no fim da tarde. A Praça, em pleno centro de Buenos Aires, mostrava elevada tensão, já que - separados por menos de cem metros - grupos de extrema direita e de extrema esquerda manifestaram-se por reivindicações antagônicas. A direita, situada na frente do monumento ao general José de San Martín, homenageou os militares mortos pela "subversão" dos anos 70. A esquerda, diante do luxuoso Plaza Hotel, em sua "contramarcha", exigiu o castigo dos militares responsáveis por torturas e assassinatos durante a última ditadura (1976-83). Os dois lados prometeram protestos pacíficos. Mas, o governo, por precaução, colocou forte presença policial entre as duas marchas.A jornada foi tensa, já que a Justiça, horas antes, havia anunciado a transferência de dois generais, acusados de crimes durante a Ditadura, do quartel onde estavam detidos para uma prisão comum. Para complicar, permanecia desaparecida uma testemunha do julgamento de um ex-torturador. Coroando o clima tenso, o presidente Néstor Kirchner disparou duras críticas contra a Igreja Católica.A marcha da direita foi convocado por vários grupos, entre eles o "Memória Completa", que defende a Ditadura e o terrorismo de Estado. Os manifestantes exigiram ao governo que oficialize o 5 de outubro como o "Dia nacional dos mortos pela subversão". Nessa data, em 1975, o grupo Montoneros atacou o Regimento 29. O saldo foi o de 12 militares mortos (e 16 guerrilheiros). Os manifestantes da direita - com a presença de dezenas de militares da reserva (e outros na ativa, mas à paisana) e alguns skinheads - ostentavam cartazes com as fotos dos militares e civis mortos pela guerrilha. Neste grupo predominava o "look" de homens de paletó e gravata e mulheres de jóias caras.Do outro lado da barreira policial aglomeravam-se - com um figurino mais "alternativo" e profusão de bandeiras com a efígie de Lênin - os representantes da extrema esquerda - entre eles o trotskista Convergência Socialista - além da associação "HIJOS", de filhos de desaparecidos - que fizeram a contra-marcha com o slogan "Entreguem López", em alusão a Jorge Luis López, de 77 anos, testemunha crucial no julgamento do ex-torturador Miguel Etchecolatz, condenado à prisão perpétua. López desapareceu na véspera da sentença de Etchecolatz, há duas semanas e meia. O governo e os organismos de defesa dos Direitos Humanos acreditam que militantes da direita teriam seqüestrado López, a modo de vingança e para assustar potenciais testemunhas de outros processos de militares.A tensão existente desta quinta também havia sido potencializada na véspera, quando divulgou-se que o general Reynaldo Bignone, o último ditador, havia publicado no site do "Memória Completa" uma defesa da Ditadura e pedia às jovens gerações que "terminem aquilo que nós não soubemos e não pudemos terminar". PrisãoO juiz federal Jorge Parache ordenou que os generais Antonio Domingo Bussi e Luciano Benjamín Menéndez sejam removidos do quartel onde estão detidos para uma prisão comum. Os dois militares, processados por violações aos Direitos Humanos, estão em prisão preventiva. Segundo o juiz, a função do Exército é a de "tomar conta da Pátria, e não dos detidos".IgrejaKirchner voltou a confrontar-se ontem com a Igreja Católica. Quatro dias depois de ter sido chamado - de forma indireta - pelo primaz da Argentina, cardeal Jorge Bergoglio, de "diabo" e um dia depois de ter sido acusado pelo presbítero Guillermo Marcó, porta-voz de Bergoglio, de "dividir os argentinos", Kirchner rebateu, afirmando que "o diabo anda por todos os lados, e da mesma forma que pode usar calças...também pode andar de batina!"

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