REUTERS/Jean-Paul Pelissier
REUTERS/Jean-Paul Pelissier

Extrema direita francesa luta contra fragmentação

Derrotada nas urnas, Frente Nacional enfrenta divergências internas e tende a se dividir

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2017 | 05h00

Dois meses depois de perder a eleição presidencial para Emmanuel Macron, o mais importante partido de extrema direita da Europa, a Frente Nacional, enfrenta uma grave crise e está ameaçado. Minada pelas feridas da derrota e pelas divergências internas, a legenda deve mudar de nome, alterar sua linha programática, abandonar a ruptura com a União Europeia e pode até se fragmentar em vários partidos. 

A turbulência na Frente Nacional teve início no período entre os dois turnos da eleição presidencial francesa, no início de maio. Após registrar um resultado histórico no primeiro turno, quando obteve 21,3% dos votos - o melhor desempenho do partido na história -, Marine Le Pen naufragou no debate direto com Mácron.

Despreparada, aparentando estar sem conteúdo e centrando sua estratégia em ataques pessoais, a líder da extrema direita caiu nas pesquisas, fechou o segundo turno com menos de 34% dos votos - quando algumas sondagens chegaram a anunciar que ela teria 45% da preferência.

O desempenho provocou críticas internas à própria presidente do partido, mas sobretudo a seu vice-presidente, Florian Philippot, acusado por ter sido o responsável pela virada ideológica da Frente Nacional, no início da década. 

Soberanista, Philippot foi o artífice da guinada nacionalista do partido, que deixou de se reconhecer como uma legenda de extrema direita para se apresentar como uma legenda “nem de direita, nem de esquerda”. Além disso, ele fixou o programa econômico da Frente Nacional com o objetivo de deixar a União Europeia, abandonar o euro e retornar ao franco como moeda nacional.

Essas bandeiras impopulares são hoje apontadas como a causa central da derrota de Marine Le Pen para Emmanuel Macron - um líder político pró-UE e livre-comércio. 

Na sexta-feira, líderes da legenda se reuniram na sede de Nanterre, na periferia de Paris, para discutir a do partido. Duas linhas políticas se enfrentam: a de Philippot e a tradicional, herdada do fundador e líder histórico da extrema direita, Jean-Marie Le Pen, pai de Marine: “identidade” francesa, combate à imigração legal e ilegal e luta contra a suposta islamização do país. 

O objetivo do “seminário” da Frente Nacional, que terminou ontem, foi preparar um questionário para consultar os eleitores antes do congresso do partido, que deve ocorrer entre janeiro e fevereiro de 2018, mas todas as divergências e rivalidades internas afloraram.

Após o resultado das eleições francesas, Philippot criou uma associação chamada “Patriotas” - justamente um dos nomes que vinham sendo cogitados para substituir Frente Nacional. Desde então, ele dá sinais de que, se sua linha ideológica soberanista for abandonada, ele deixará o partido. E não há dúvidas de que Patriotas seria sua nova legenda. 

“Se a Frente Nacional tornar-se um partido federalista e europeísta, eu não vejo por que eu ficaria e creio que não serei o único”, advertiu. Para Philippot, o nome da legenda “dá medo”.

Alta fidelidade. De acordo com o deputado Louis Aliot, marido de Marine Le Pen, a linha de Philippot e a campanha contra a zona do euro fazem parte de uma estratégia errada do partido. “A questão não é manter ou não o euro, mas qual Europa nós queremos para amanhã”, afirmou.

Entre os militantes, essa divisão também é clara. Segundo a empresária Lilou Teral, eleitora da FN e alinhada ao líder soberanista, é chegado o momento da ruptura. “Eu estou só à espera que Florian Philippot funde seu próprio partido para segui-lo”, garante. “Eu abandonei Marine Le Pen, que não liga para a gente.” 

Segundo Thomas Benizan, militante do partido na região de Vosges, no leste do país, Marine Le Pen ainda é a líder absoluta. “Eu não sou um rato que abandona o navio assim que aparecem os primeiros sinais de água”, argumenta. “Eu sou Frente Nacional e continuo a apoiar Marine frente aos que a criticam.”

Para a analista Nonna Mayer, diretora do Centro Nacional de Pesquisa Científica, a turbulência no interior da legenda existe, mas isso não significa o fim do partido de extrema direita.

“É paradoxal criticar a linha de Florian Philippot, porque foi essa linha que permitiu ao partido recolher tantos votos (11 milhões) quanto o fez”, disse. “A Frente Nacional tem um núcleo duro de eleitorado, de um lado, e tem os decepcionados dos demais partidos: dos republicanos, dos socialistas, quem sabe amanhã dos macronistas.”

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