REUTERS/Philippe Wojazer
REUTERS/Philippe Wojazer

Extrema direita na Áustria

Nem todos os líderes da extrema direita europeia são tão manhosos quanto Marine Le Pen ou Norbert Hofer

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

26 Abril 2016 | 05h00

A recomposição política prossegue na Europa. Tudo leva a crer que, na França, o Partido Socialista nem figure entre os três primeiros nas eleições presidenciais de 2017, enquanto o partido de Marine Le Pen, a Frente Nacional, ainda infrequentável, vai se alinhar entre os partidos do governo.

Na Áustria, o primeiro turno das eleições presidenciais ocorreu no domingo. O resultado mostrou uma balbúrdia ainda maior. Esse pequeno país, com seus 8,5 milhões de habitantes, tranquilo, montanhoso, culto e próspero era governado desde 2008 por uma coalizão formada pelos social-democratas (SPÖ) e cristãos conservadores (ÖVP). 

Nesta segunda-feira, os eleitores alteraram o jogo. Dois partidos até aqui minoritários chegaram na frente: o FPÖ, de extrema direita, dirigido por Norbert Hofer, teve 36,4% dos votos. Um velho professor, Alexander Van der Bellen, apoiado pelos ecologistas, obteve 20%.

Na contramão, os dois partidos tradicionais, os socialistas e a direita cristã, que dividiam a presidência desde 1945, ficaram mal: 11% dos votos cada. No subsolo da sociedade austríaca, as placas tectônicas se agitaram. Uma nova paisagem surgiu da bruma. 

O choque vai além da Áustria. Em todos os países da Europa, formações extremistas de direita comemoram há alguns anos, pois os ventos lhes são favoráveis: a União Europeia mergulha no caos, a crise econômica assola a região e, mais recentemente, os migrantes fazem renascer os velhos temores do tempo em que o Império Romano era assolado pelas hordas bárbaras.

Onda. Hoje, a vitória do FPÖ fascista entusiasma as outras forças afins em outros países da Europa. Em primeiro lugar, a francesa Marine Le Pen. Ela, por outro lado, tem um motivo pessoal para brindar. De fato, Norbert Hofer, o candidato do FPÖ , tomou como modelo Marine Le Pen.

Ela conseguiu o primeiro lugar na França graças a sua “desdemonização”. Enquanto seu pai, Jean-Marie Le Pen celebrava Hitler e até mesmo os campos de concentração, Marine Le Pen mostra um rosto suave, amável, alegre e burguês.

O austríaco Norbert Hofer faz o mesmo: ele é bonito, jovem, saudável, sorridente e acessível. Não diz uma palavra que não seja pesada com extremo cuidado. Exatamente como Marine Le Pen – e com os mesmos bons resultados. Evidentemente, sabemos que, no caso de Marine, esse comportamento não passa de artimanha: ela dissimula inquietantes caretas. 

O mesmo se pode dizer do delicado Norbert Hofer. Esse homem doce, cortês, afável, é integrante de uma corporação estudantil chamada Marko Germania, que pratica ainda o clandestino duelo de iniciação de seus associados com espadas, sem proteção para o rosto.

Diretos. Nem todos os líderes da extrema direita europeia são tão manhosos quanto Marine Le Pen ou Norbert Hofer. Não muito distante da Áustria, por exemplo, na Eslováquia, a 200 quilômetros a leste de Bratislava, a capital, há uma região chamada Banska Bystrica, que tem 653 mil habitantes.

O presidente dessa região, Marian Kotleba é também chefe do Partido ISNS (Nossa Eslováquia) e não esconde seu jogo. Formado nas brigas de rua dos skinheads, Marian sonha em fazer da sua Banska Bystrica o modelo europeu da direita mais radical. Não esconde a nostalgia do Estado clerical fascista de Josef Tiso, que, nos belos tempos do nazismo, foi aliado predileto de Hitler.

Marian é chamado de “Vulka”, que significa “führer”. Está sempre acompanhado de guarda-costas musculosos e usa camiseta cáqui. Sua especialidade, sua embriaguez, é a caça aos roma (ciganos). O curioso é que ele chegou a tirar dos velhos armários do nazismo o conceito de “arte decadente” – o que não quer dizer nada – e se serve dele para proibir, no teatro, todas as peças que não defendam sua moral e suas ideias.

O partido Nossa Eslováquia projeta exigir um referendo para a saída da Eslováquia da União Europeia, mostrando assim o mesmo horror da Europa compartilhado por todos os partidos fascistas do continente. Kotleba sonha criar na Eslováquia uma “democracia não liberal”, como existe em dois países-membros da União Europeia, a Hungria e a Polônia.


Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.