Loulou d'Aki/The New York Times
Loulou d'Aki/The New York Times

Como os russos criaram uma máquina global que catapultou a extrema direita

Na Suécia, mídia nacionalista mantém contatos com Kremlin e pauta discurso anti-imigração nas redes sociais e nas ruas

Jo Becker, The New York Times

12 de agosto de 2019 | 06h00

RINKEBY, SUÉCIA - Johnny Castillo, um vigia peruano num bairro em Estocolmo, ainda está intrigado com os eventos que há dois anos transformaram a praça central desta comunidade predominantemente de imigrantes num símbolo de multiculturalismo sair totalmente de controle.

Primeiro foi o comentário, hoje considerado abominável, feito pelo presidente americano, Donald Trump, sugerindo que a história da Suécia de acolher refugiados estava na base de um violento ataque em Rinkeby, embora nada havia realmente ocorrido.

“Veja o que sucedeu na noite passada na Suécia. Quem acreditaria nisto! Suécia!”, disse Trump a seus apoiadores num comício em 18 de fevereiro de 2017. “Eles chegam em grande número. E eles estão tendo problemas que nunca pensaram ser possível.”

A fonte do presidente: a Fox News, que tirou trechos de um curta que promovia uma visão distópica da Suécia como vítima das suas políticas de asilo, com bairros de imigrantes se tornando zonas proibidas dominadas pelo crime.

Mas dois dias depois, quando as autoridades suecas responderam com desdém a Trump, algo de fato ocorreu em Rinkeby: algumas dezenas de homens mascarados atacaram policiais que realizavam uma prisão por causa de drogas, lançando pedras e incendiando carros.

E foi exatamente nessa ocasião que, segundo Castillo e quatro outras testemunhas, equipes de TV russas apareceram, oferecendo pagamento para jovens imigrantes para “armarem uma confusão” na frente das câmeras.

“Eles queriam mostrar que o presidente Trump estava certo com relação à Suécia, que as pessoas que chegam à Europa são terroristas e querem transtornar a sociedade”, disse Castillo.

Essa retórica nativista - segundo a qual os imigrantes estão invadindo a nação, vem ganhando cada vez mais tração e aceitação política em todo o Ocidente em meio aos deslocamentos de vastas ondas de imigrantes do Oriente Médio, África e América Latina. Na sua forma mais extrema isso é repercutido no manifesto online do homem acusado de matar a tiros 22 pessoas neste mês em El Paso, no Texas.

Na mensagem dos nacionalistas, com salpicos de “schadenfreude”, o que ocorre na Suécia é um aviso. O que é ainda mais surpreendente é como muitas pessoas na Suécia -  um país progressista, igualitário, e acolhedor - concordam com a tese dos nacionalistas, no sentido de que a imigração trouxe o crime, o caos e um desgaste da rede de proteção social, sem falar num atrofiamento da tradição e da cultura nacionais.

Estimulado por uma reação à imigração - a Suécia aceitou mais refugiados per capita do que qualquer outro país europeu - o populismo de direita vem se implantando, refletido principalmente na ascensão firme de um partido político com raízes neonazistas, os Democratas Suecos. Nas eleições do ano passado eles conquistaram 18% dos votos.

Para ir  além da superfície do que vem ocorrendo na Suécia, contudo, é preciso desvendar o mecanismo de uma maquina de desinformação internacional devotada a cultivar, provocar e amplificar as paixões anti-imigração e as forças políticas da extrema direita. Na verdade, essa máquina, cujas influências têm raízes na Rússia de Vladimir Putin e na extrema direita americana, realça uma ironia fundamental deste momento político: a globalização do nacionalismo.

O alvo central dessas manipulações do exterior - e o principal instrumento do sucesso dos nacionalistas suecos - é a câmera de eco digital cada vez mais popular e virulentamente contra os imigrantes.

Entidades russas e ocidentais que trafegam na desinformação, incluindo um grupo islamofóbico cujo ex-chairman é hoje assessor de segurança nacional de Trump, mantém ligações cruciais com sites suecos, ajudando a difundir sua mensagem para suecos mais suscetíveis.

Pelo menos seis sites suecos receberam apoio financeiro por meio de receita de publicidade de uma empresa de autopeças de propriedade ucraniana e russa com sede em Berlim, cuja rede de vendas online contém, estranhamente, links digitais encobertos para uma gama de conteúdo de direita radical e outro conteúdo socialmente desagregador.

Redatores e editores de sites suecos mantêm laços de amizade com o Kremlin. E em uma estranha cadeia de eventos, um frequente contribuinte alemão para um site sueco está implicado no financiamento de um bombardeio na Ucrânia, numa suspeita operação de bandeira falsa russa.

A visão distorcida da Suécia insuflada por essa máquina de desinformação, tem sido usada por partidos contrários à imigração da Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e em outras partes para fomentar a xenofobia e conquistar votos, segundo o Institue for Strategic Dialogue, entidade sem fins lucrativos que monitora a difusão online do extremismo da extrema direita.

“Eu colocaria a Suécia no nível da campanha anti-Soros”, disse Chloe Colliver, pesquisadora do instituto, referindo-se aos ataques antissemitas contra George Soros, bilionário benfeitor das causas liberais. “Ela se tornou uma peça central permanente dos argumentos da direita radical.”

À medida que as eleições de 2018 se aproximavam a contrainteligência sueca ficou em posição de alerta para interferência estrangeira. A Rússia, sua vizinha a leste, era vista como a principal ameaça. Depois da intromissão do Kremlin na eleição americana de 2016, a Suécia tinha razões para temer o que poderia vir a ocorrer.

“O objetivo da Rússia é fragilizar os países ocidentais pela polarização do debate”, afirmou Daniel Stenling, chefe da contrainteligência do Serviço de Segurança Sueco. “Nos últimos cinco anos temos visto um trabalho cada vez mais agressivo de inteligência contra nossa nação”, afirmou ele.

Mas como se verificou, não havia operações de hackers nem vazamentos de documentos de campanha, como nos Estados Unidos. E tampouco havia um esforço explícito para desviar a eleição em favor dos Democratas Suecos, talvez porque o partido, se aliando com a opinião popular sueca, se tornou mais crítico do Kremlin do que suas contrapartes europeias de extrema direita.

Em vez disto, dizem as autoridades, a campanha de influência estrangeira assumiu uma forma mais sutil, ajudando a nutrir o ecossistema digital da direita radical que evoluiu rapidamente.

Durante anos os Democratas Suecos se empenharam para defender suas ideias junto à população. Muitos órgãos da imprensa rejeitaram seus anúncios. O partido tinha dificuldade até para enviar suas mensagens pelo correio. Assim, criou uma rede de páginas fechadas no Facebook cujo alcance superou o de qualquer outro partido.

Mas para prosperar no sentido viral, essa rede exigia conteúdo novo e atraente. Ela atraiu um grupo de websites relativamente novos cuja popularidade estava explodindo.

Membros dos Democratas Suecos ajudaram a criar dois deles: o Samhallsnytt (Notícias na Sociedade) e o Nyheter Idag (Notícias Hoje). No ano eleitoral de 2018 eles, junto com um site chamado Fria Tider (Times Livre) estavam entre os 10 mais compartilhados sites de notícias da Suécia.

Estes sites alcançaram por semana um décimo de todos os usuários de Internet na Suécia, de acordo com estudo da universidade de Oxford, responsáveis por 85% das “junk news” relacionadas com a eleição - informações deliberadamente distorcidas e enganosas - compartilhadas online. Havia outros sites também, todos injetando mensagens islamofóbicas e contra imigrantes no ambiente político sueco.

“A imigração por trás da escassez de água potável no norte de Estocolmo” dizia uma manchete recente. “Menor refugiado estuprou a filha da família que o acolheu. E achava que isso era legal”, dizia uma outra. “Mutilou órgão genital das suas filhas - e recebeu asilo na Suécia”, dizia uma terceira.

A mão da Rússia em tudo isto não é visível. Mas as impressões digitais são muitas. Por exemplo, um redator do site Samhallsnytt, que trabalhou antes para os Democratas Suecos, teve rejeitada recentemente sua credencial de imprensa depois que a polícia de segurança concluiu que ele mantinha contato com a inteligência russa.

O site Fria Tider é considerado um dos sites mais extremistas, mas também o mais próximo do Kremlin. Ele troca com frequência material com o jornal de propaganda russa Sputnik. O site está ligado ao Granskninh Sverige, chamado “fábrica de trolls” por seus esforços para armar ciladas e constranger jornalistas da imprensa convencional. 

Entre seus alvos frequentes estão os jornalistas que escrevem matérias negativas sobre a Rússia. “Temos ameaças de morte, ataques de spam, e-mails - este ano foi completamente insano”, disse Eva Burman, editora do jornal Eskilstuna-Kuriren, que se viu na mira depois de criticar a anexação da Crimeia pela Rússia e investigar o próprio Granskning Sverige.

Na revista Nya Tider, Vavra Suk, editor, viajou para Moscou como observador da eleição e para a Síria, onde fez relatos favoráveis ao Kremlin da guerra civil nesse país. O Nya Tider publicou trabalho de Alexander Dugin, filósofo ultranacionalista russo chamado Rasputin de Putin”. Os artigos de Suk para o grupo de reflexão de Dugin incluem um que intitulado “Donald Trump pode tornar a Europa grande novamente”.

Entre os que contribuem para o Nya Tider estão Manuel Ochsenreiter, editor do Zuerst!, jornal de extrema direita germânico. Ochsenreiter - que aprece regularmente no RT, canal de propaganda do Kremlin - até recentemente trabalhava para Makus Frohnmaier, membro do Bundestag representante do partido de extrema direita  Alternativa para a Alemanha (AfD). 

Documentos vazados para um consórcio de agências de mídia européias - que Frohnmaier qualificou de falsos - sugeriram que Moscou ajudou a sua campanha eleitoral com o fim de ter um MP “absolutamente controlado”.

Ochsenreiter, por seu lado, está implicado na justiça polonesa envolvido no financiamento de um ataque à bomba em 2018 contra um centro cultural húngaro na Ucrânia. O complô, segundo depoimento de um extremista polonês acusado de realizar o atentado, tinha por fim jogar a responsabilidade sobre os nacionalistas ucranianos e alimentar tensões étnicas em benefício da Rússia. Ochsenreiter não foi acusado na Polônia, mas promotores em Berlim disseram ter iniciado uma investigação preliminar a respeito. Ele nega o envolvimento.

E há também o Nyheter Idag. Seu fundador, Chang Frick - ex democrata sueco que assumiu ares de dissidente ao desafiar a ortodoxia - admite ter sido um contribuinte pago do RT. Numa pizzaria perto de sua casa numa noite ele observou que sua namorada era russa e tirou do bolso um maço de rublos de uma viagem recente.

“Ele é meu real patrão! É Putin!, disse rindo.

But Frick, filho de uma cigana sueca e um judeu polonês, disse que o Nyeheter Idag não responde a ninguém, nem aos Democratas Suecos e nem ao Kremlin, mas acrescentou que suas reportagens sobre os problemas representados pelos imigrantes se encaixam nas agendas de ambos.

“As pessoas podem ver o que se passa nas ruas. Sou acusado de ser racista - que estou sendo pago pelos Democratas Suecos. Que sou espião do Kremlin. Isso significa, eu acho, que estou tocando na ferida.”

Mas ele disse que tinha razão em acreditar que “existe algum conluio entre a mídia de direita sueca e a Rússia”. Um dos seus furos de reportagem envolveu a exposição das bebedeiras e das farras com mulheres de um membro democrata sueco do Parlamento que havia sido convidado a ir a Moscou. Durante a viagem para fazer a reportagem ele foi convidado para servir como observador independente na eleição presidencial da Rússia e a se encontrar com Putin. E recusou o convite.

Este é um outro denominador comum russo curioso: seis sites de direita da Suécia têm recebido receita de publicidade de uma rede de lojas de autopeças online com base na Alemanha e de propriedade de quatro empresários da Rússia e da Ucrânia, três deles com sobrenomes adotados que parecem alemães.

Os anúncios foram observados pela primeira vez pelo jornal sueco Dagens Nyheter, que descobriu que embora eles aparecessem em vários estabelecimentos de mídia, todos remontavam ao mesmo endereço em Berlim e eram de propriedade de uma empresa matriz, Autodoc GmbH.

Anúncios

O New York Times descobriu que a companhia também colocava anúncios em outros sites extremistas e antissemitas na Alemanha, Hungria, Áustria e outros lugares da Europa. O que levantou a pergunta: o comerciante de autopeças está tentando alavancar seu negócio ou apoiando a causa da extrema direita?

Rikark Lindholm, co-fundador de uma empresa de marketing que opera com dados e trabalhou com autoridades suecas para combater a desinformação, analisou a fundo a rede Autodoc.

Oculto sob a interface e o fácil uso pelo usuário de alguns dos primeiros sites da Autodoc estão o que Lindholm descreveu como “icebergs” de conteúdo similar a um blog sem nenhuma relação com autopeças, traduzido para várias línguas. Um visitante dos sites não poderia simplesmente acessar esse conteúdo a partir da home Page. Ele teria de conhecer e digitar a URL.

“É como se fosse uma porta dos fundos e está aberta e você pode dar uma olhada, mas tem de saber que a porta está lá”, disse Lindholm.

Grande parte do conteúdo não era político, mas havia links para postagens sobre uma série de temas sociais polêmicos, alguns traduzidos para outras línguas. Um link oculto - sobre mutilação sexual feminina nos países muçulmanos - foi traduzido do inglês para polonês antes de ser postado. Mas uma outra postagem, de um site chamado AnsweringIslam.net, concluía: “O Islã o odeia”.

Thomas Casper porta-voz da Autodoc, disse que a companhia não “tinha nenhum interesse em apoiar a mídia de direita alternativa. “Nós nos opomos veementemente ao racismo e aos princípios da extrema direita”.

Segundo ele, a equipe da companhia trabalha a propaganda digital com terceiros para colocar os anúncios “em websites confiáveis com tráfego substancial”. A Autodoc, disse ele, mantinha controles estabelecidos de modo a não inserir mais anúncios em sites de extrema direita.

Quanto aos icebergs, depois de receber a averiguação do Times, a companhia removeu o que Casper qualificou como “conteúdo obviamente duvidoso e desatualizado”; ele havia sido colocado originalmente ali, disse ele, para aprimorar a otimização do motor de busca. 

Mas Lindholm disse que isso não fazia sentido. “Propor links para páginas com conteúdo irrelevante na verdade prejudica o seu negócio porque o Google reprova isto”, disse ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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