Extrema direita vai ao segundo turno na França e Jospin anuncia aposentadoria

O candidato da extrema direita e do Partido da Frente Nacional às eleições presidenciais da França, Jean Marie Le Pen, conseguiu impor sua candidatura garantindo sua participação no segundo turno do pleito ao obter 17% dos votos. O líder da votação foi o presidente Jacques Chirac, candidato à reeleição à presidência e que obteve 19,9%. O grande derrotado foi o candidato do PS, o primeiro ministro Lionel Jospin que só reuniu 16,3% dos votos, transformando-se na principal vítima desse verdadeiro "desastre eleitoral" da esquerda. Nunca, na história da Quinta República da França, os socialistas haviam sofrido uma tão importante derrota num pleito presidencial, cujas conseqüências poderão ser importantes a curto prazo. Eles sofreram não só a humilhação de assistir seu candidato ser eliminado no primeiro turno da eleição presidencial , mas com a agravante de ter sido o representante da extrema direita o responsável. Lionel Jospin foi o primeiro a tirar conclusões de sua derrota. Poucas horas depois de ter sido anunciado o resultado, o primeiro ministro dirigiu-se aos franceses pela televisão , não escondendo sua decepção e explicando as razões de sua derrota, "a demagogia da direita e a dispersão da esquerda". Ele assumiu inteiramente a responsabilidade pelo malogro eleitoral, anunciando sua retirada da vida política francesa tão logo sejam conhecidos os resultados finais das eleições presidenciais, no dia 5 de maio. Até lá, ele promete permanecer nas suas funções de primeiro ministro. Jospin classificou o resultado como "uma tempestade", considerando-o "preocupante para a França e para a democracia". Finalmente ele lançou um apelo a mobilização dos socialistas para as eleições legislativas na "espectativa da reconstrução do futuro". De fato, a França ingressa num período de tensões que vai durar pelo menos até junho, pois terá pela frente o segundo turno do pleito presidencial e os dois turnos das legislativas. Essa tensão é revelada pelos títulos dos principais jornais parisienses de amanhã: "O choque" ou "O seisma ". O presidente Jacques Chirac foi o último a se manifestar lembrando que , agora, o que está em jogo "são os valores da República" , mas também "o futuro da França e de sua tradição humanista. O resultado obtido por Chirac, 19,8%, não chega também a ser consagrador, daí a prudência de suas declarações. Um debate estava programado entre Chirac e Jospin para os primeiros dias de maio, mas agora, muito provavelmente, o presidente Jacques Chirac vai evitar um encontro direto, diante das camêras, com o líder da extrema direita. Seu staff não se manifesta sobre o assunto dizendo que cabe ao candidato Chirac decidir sobre esse debate que eletrizaria o país. Le Pen, entretanto, já está reivindicando esse debate. Seu único apoio explícito foi o de Bruno Megret, dissidência da Frente Nacional e que obteve 2,2 % dos votos. Ele havia rompido com Le Pen, mas agora promete juntar suas forças para o segundo turno. Em seu discurso, Jean Marie Le Pen procurou tranqüilizar a população para que não tenha medo de confirmar seu voto no dia 5 de maio, lançando um apelo supra-partidário diante das reações negativas dos partidos e das primeiras manifestações anti Le Pen nas ruas de Paris, de Lyon e Grenoble. Na Praça da Bastilha e na Praça de la Repúblique, diversos grupos se reuniram para protestar com slogans do tipo: "O fascismo não passará". Nos próximos dias, diversas outras manifestações anti Le Pen já estão previstas. A maior força de Le Pen se situa no sul da França, sendo que em cidades como Marselha e Nice, o candidato da Frente Nacional lidera com resultados acima de 25% dos votos, seguido de Chirac e Jospin. Ele foi candidato a presidente pela primeira vez em 1974, tendo obtido apenas 0,74 % dos votos, num pleito em que foi eleito Valery Giscard D "Estaing. Definido o resultado, os institutos de pesquisa efetuaram uma primeira pesquisa projetando o resultado do segundo turno entre Jacques Chirac e Jean Marie Le Pen. Nesse caso, hoje, o atual presidente seria plebiscitado, recolhendo 78% dos votos contra apenas 22% de Le Pen. Diversos dirigentes dos partidos de esquerda, mesmo não recomendando o voto a Chirac, deixaram claro que "tudo farão para barrar a extrema direita". Esse é o caso do candidato comunista Robert Hué, apenas 3,6% dos votos, cuja derrota é definida como "um naufrágio". Hué perdeu para Le Pen até no município onde é o prefeito. O candidato verde obteve 5 % dos votos, um resultado negativo para quem esteve representado no governo socialista nesses últimos cinco anos. Os dirigentes do PS estão lançando um apelo a mobilização nessa mesma direção, casos de Laurent Fabius, Martine Aubry, Dominique Strauss Khan, todo o estado maior de Jospin. Eles esperam também reunir as forças de esquerda em função da eleição legislativa de junho, quando será eleita a nova Assembléia Nacional, cuja maioria de esquerda ou de direita vai definir a formação do novo governo e se haverá ou não necessidade de uma nova coabitação entre esses dois grupos políticos. Uma eventual vitória de Jacques Chirac nas presidenciais poderá criar uma dinâmica de vitória também nas eleições parlamentares. Muito provavelmente os franceses, depois de reflexão, vão amanhecer de ressaca por terem optado por um domingo ensolarado ao invés de ir votar. Isso porque a abstenção recorde, 28%, constitui uma das causas do resultado, além da dispersão de votos entre os partidos da antiga "maioria plural", constituída também pelos verdes e pelos comunistas.O recorde anterior de abstenção na França havia sido de 22,1%. Mais de 40% de eleitores simpatizantes do PS confessam que votaram em outros candidatos de esquerda no primeiro turno. Como sempre tem ocorrido nos últimos pleitos, os institutos de pesquisa não chegaram a anunciar a possibilidade de Le Pen superar Jospin, mesmo prevendo seu crescimento. Só poucos analistas chegaram a analisar essa possibilidade durante a semana passada. Ontem, esses institutos lembravam que o grande número de indecisos e a previsão de uma alta abstenção não permitiam indicar essa tendência. Entre os demais candidatos, o que melhor se saiu foi o centrista da UDF, François Bayrou, que obteve 6,8% dos votos, um parceiro de quem o presidente Jacques Chirac vai depender para a formação de um grande partido reunindo as forças da direita clássica para susbstituir o RPR. Jean Pierre Chevenement, o candidato do "polo democrático" decepcionou com apenas 5,3%; o liberal Alain Madelin, 3,8%; o verde Noel Mamére, 5,1%. Os três candidatos da extrema esquerda reuniram mais de 10% dos votos. Arlette Laguiller, Lutte Ouvriére, reuniu 5,3 % dos votos, enquanto o candidato da Liga Comunista Revolucionária, Olivier Besancenot, 4,5%; o terceiro candidato trotskista , Daniel Gluckstein, 0,5 %. Para os dirigentes desses três partidos trotskistas franceses esse resultado sobre o PCF constitui uma vitória póstuma de Trotsky sobre Stalin. Outros candidatos como a representante radical, originária da Guiania, Christiane Toubira, reuniu 2,2 % dos votos; Corine Lepage, 1,4%; Christine Boutin, 1,7%. Entre os pequenos candidatos quem obteve uma votação satisfatório foi Jean Saint Josse, representante da caça e da pesca, reunindo 4% dos votos.

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