Extrema esquerda cresce na França e dá vantagem a socialistas em 2º turno

Em uma campanha criticada pelo irrealismo das propostas do presidente Nicolas Sarkozy e de seu principal oponente, o socialista François Hollande, um novo fenômeno eleitoral pode selar o destino da França nos próximos cinco anos. Pesquisas da última semana colocam a extrema esquerda, liderada pelo populista Jean-Luc Mélenchon, na frente da extrema direita. A ascensão reforça a perspectiva de vitória do Partido Socialista no segundo turno.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2012 | 03h06

A emergência do "fenômeno Mélenchon" foi identificada há cerca de duas semanas, quando o populista, candidato da Frente de Esquerda - coligação que inclui o Partido Comunista - levou milhares de franceses à Praça da Bastilha, em Paris, entusiasmados com seu discurso revolucionário, bem como promessas de aumento do salário mínimo por decreto e de nacionalizar empresas. Desde então, Mélenchon não para de crescer. Na sexta-feira, pesquisa do instituto CSA o apontou na terceira posição, com 15% dos votos, contra 13% da líder da Frente Nacional, a ultraconservadora Marine Le Pen.

Essa inversão no terceiro lugar, indicam analistas políticos ouvidos pelo Estado, tem um peso importante na eleição: o crescimento de Mélenchon rouba votos de Hollande e ajuda Sarkozy no primeiro turno, em 14 dias. O presidente assume a liderança, com cerca de 30% da preferência contra 29% de seu oponente. Entretanto, o socialista consolida sua vantagem no segundo turno, virando o jogo com a perspectiva de vitória por 54% dos votos, contra 46% de Sarkozy, de acordo com o CSA.

Essa reversão é possível porque Mélenchon, um ex-membro do PS e ex-ministro do governo de Lionel Jospin, vem recuperando para a esquerda um eleitorado perdido há quase duas décadas para a extrema direita. Conforme o instituto Ifop, Mélenchon conquista apoio entre operários não qualificados e funcionários públicos de nível básico ou intermediário, eleitorado que havia se acostumado a votar em Jean-Marie Le Pen ou se preparava para apoiar o projeto político xenofóbico da filha dele, Marine.

O resultado da penetração do populista nos eleitorados de baixa renda é que no segundo turno eles tendem a votar em Hollande. Em janeiro, 40% dos entrevistados pelo instituto Ipsos pretendiam escolher candidatos de esquerda. Agora, duas semanas antes da eleição, eles são 45,5%, afirma o cientista político Brice Teinturier, diretor-geral de Ipsos na França. Assim, o candidato do PS junta apoio popular ao seu eleitorado de classe média e alta formação acadêmica. "Quanto mais baixo o nível de patrimônio, mais eles estão tentados a votar à esquerda", diz o cientista político Jérôme Saint-Marie, diretor do instituto CSA.

A 15 dias do primeiro turno, a tendência é a de reedição da votação de 1981, quando o socialista François Mitterrand perdeu o primeiro turno para o então presidente de centro-direita, Valéry Giscard d'Estaing, por 28,32% a 25,85%. No segundo, venceu por 51,76% contra 48,24% - graças à reserva de votos da esquerda.

Sarkozy joga nas próximas duas semanas sua principal cartada: expandir a diferença para Hollande no primeiro turno, passando ao eleitorado a sensação de que a reversão é impossível. Para tanto, o atual presidente tem multiplicado promessas, a ponto de propor com pompa medidas como antecipar o pagamento dos aposentados do dia 8 para o dia 1.º de cada mês.

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