Mark Mitchell / AFP
Mark Mitchell / AFP

Autor de massacre na Nova Zelândia é acusado formalmente de homicídio

No tribunal, Brenton Tarrant fez o gesto de um 'ok' com a mão direita, símbolo usado por nacionalistas brancos; ele não pediu fiança e ficará na prisão até a próxima audiência, marcada para 5 de abril

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2019 | 09h51
Atualizado 25 de março de 2019 | 00h49

CHRISTCHURCH, NOVA ZELÂNDIA - O extremista Brenton Tarrant, autor do atentado contra duas mesquitas na Nova Zelândia na sexta-feira que matou 50 pessoas, foi apresentado neste sábado, 16, ante um tribunal na cidade de Christchurch, onde foi acusado de homicídio. Algemado, o australiano de 28 anos escutou impassível a leitura das acusações contra ele. 

Durante a audiência, Tarrant fez o gesto de um "ok" com a mão direita, um símbolo usado por nacionalistas brancos. O militante de extrema direita e ex-preparador físico olhava de vez em quando para os membros da imprensa presentes no tribunal durante a breve audiência realizada a portas fechadas por razões de segurança. Tarrant não pediu fiança e permanecerá na prisão até a próxima audiência, marcada para o dia 5 de abril. 

Autoridades da Austrália encontram dificuldade em buscar detalhes sobre a vida do atirador. Embora seus perfis no Facebook e no Twitter tenham sido derrubados pouco depois das notícias do ataque se espalharem, a polícia descobriu que Tarrant viveu em Grafton, uma cidade do interior dividida por um rio e conhecida pela indústria madeireira, aproximadamente 500 km ao norte de Sydney.

Outras duas pessoas estão sob custódia, embora seus vínculos com o massacre sejam desconhecidos. Uma terceira pessoa que havia sido detida mais cedo foi apontada como alguém comum com arma de fogo que tentou ajudar.

Do lado de fora do tribunal, era possível ver agentes de elite fortemente armados em todos os pontos de acesso. No mesmo local, os filhos do afegão Daoud Nabi, de 71 anos, que morreu no atentado, exigiam justiça. "É repugnante, é uma sensação de repugnância", declarou um dos filhos de Nabi.

Enquanto isso, 42 pessoas - incluindo uma criança de apenas 4 anos de idade - ainda eram tratadas em vários hospitais em razão dos ferimentos sofridos durante os ataques de Tarrant. A ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, disse neste sábado que entre as vítimas há cidadãos da Turquia, Bangladesh, Indonésia e Malásia.

Segundo a emissora Al Arabiya, há pelo menos um cidadão saudita entre as vítimas, enquanto as autoridades paquistanesas alegam que cinco de seus cidadãos estão desaparecidos.

Controle de armas

A Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês), entidade que representa fabricantes de armas nos EUA, reagiu ao anúncio de que a Nova Zelândia endurecerá as regras para compra de armamento. Pelo menos a comercialização de semiautomáticas deve ser restringida após o ataque de sexta-feira em Christchurch.

Coube a Cam Edwards, um apresentador da NRATV, o serviço de streaming da organização, dar a linha de argumentação que desvincula armas das mortes causadas por armas. "O que realmente mudou no nosso mundo nos últimos 20 anos não é o design das armas de fogo", afirmou. "É o revolucionário modo com o que nós temos de nos comunicar com estranhos, criando tribos online e subculturas que simplesmente não existiam muitas gerações atrás."

Usando um véu escuro, a primeira-ministra se reuniu neste sábado com sobreviventes e parentes das vítimas em uma escola que se tornou um centro de informação para os afetados pelo massacre. Ela afirmou que o autor dos ataques pretendia continuar com a violência antes de ser pego pela polícia. "O atirador podia se locomover. Havia duas outras armas de fogo no veículo em que o infrator estava, e era absolutamente sua intenção continuar com seu ataque."

Sahra Ahmed, uma neozelandesa de origem somali, disse ter ficado emocionada com o gesto da premiê. "Significa muito para nós. Foi um sinal, como se ela tivesse me dito: 'Eu estou do seu lado'", afirmou ela.

Jacinda prometeu que o país vai endurecer a legislação sobre o acesso às armas. Para ela, Brenton Tarrant tirou uma licença em novembro de 2017 que permitiu a ele comprar legalmente as armas que usou nos ataques às duas mesquitas. 

"O simples fato de que este indivíduo obteve uma licença e adquiriu armas com esse poder, faz com que as pessoas busquem claramente uma mudança, e eu estou comprometida com isso", afirmou em entrevista coletiva. "Posso dizer uma coisa agora: nossas leis sobre armas vão mudar."

Luto

No centro aberto para receber as famílias das vítimas, muçulmanos de todas as origens se abraçavam, choravam e trocavam palavras sobre seus parentes.

Azan Ali, de 43 anos, originário de Fiji, estava na mesquita Linwood com o pai no momento do ataque, que deixou sete mortos no local. “Pensei: ‘Vou voltar a ver meus pais, meus parentes?”, disse ele. “Meus filhos estão com medo. Mas temos de superar, como comunidade.” 

Os muçulmanos representam 1% da população da Nova Zelândia. No total, 41 pessoas morreram na mesquita de Al-Noor, no centro de Christchurch, 7 em Linwood, no subúrbio, e uma no hospital.

O pai de Ali, Sheik Aeshad, que viu um muçulmano baleado no pescoço, não entende como um atentado assim ocorreu no país. “Não achamos que pudesse acontecer na Nova Zelândia, um país tão amigável, em que você pode deixar a porta de casa aberta. Mas não mais. Penso no que pode acontecer da próxima vez”, lamentou.

Em Linwood, os tapetes novos instalados há alguns meses estão marcados pela tragédia. “Havia sangue por todo lado. Era uma coisa caótica”, disse Ibrahim Abdel Halim, imã da mesquita, de origem egípcia, que se dispõe a enterrar os mortos. A mulher dele, Falwa El Shazly, foi ferida no braço durante o ataque.

Massacre em vídeo

O suspeito documentou sua radicalização e os dois anos de preparativos para o ataque em um longo e rebuscado manifesto repleto de ideias conspiratórias. A filmagem que ele fez ao vivo mostra um atirador implacável indo de sala em sala, atirando à curta distância enquanto as vítimas tentavam rastejar para longe na principal mesquita de Christchurch.

A polícia neozelandesa descreveu o vídeo feito pelo assassino como "extremamente angustiante" e alertou os internautas de que eles podem ser condenados a até 10 anos de prisão por compartilhar este conteúdo. / AFP e Reuters

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