Czarek Sokolowski/AP
Czarek Sokolowski/AP

Extremistas poloneses vão do apoio a Trump a protestos contra ele

Lei americana para ajudar nas compensações de vítimas do Holocausto levou às ruas antigos apoiadores do presidente americano

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2019 | 18h03

BERLIM - Quando Donald Trump se dirigiu aos poloneses em um discurso em Varsóvia, em 6 de julho de 2017, suas colocações preencheram todas as lacunas sobre discussões que o governo de direita do país e membros da extrema direita consideravam importantes.

"A questão fundamental do nosso tempo é se o Ocidente tem a capacidade de sobreviver. Temos confiança em nossos valores para defendê-los a qualquer custo? Temos respeito o suficiente por nossos cidadãos para proteger nossas fronteiras? Temos o desejo e a coragem para preservar nossa civilização dos que querem subvertê-la e destruí-la?", disse o presidente americano na capital polonesa.

Durante o discurso, a plateia deu vivas enquanto agitava bandeiras dos Estados Unidos e da Polônia, e uma câmera de TV ao vivo mostrou uma bandeira confederada. No fim, apoiadores do governo polonês estavam convencidos, e alguns nacionalistas que ainda alimentavam ceticismo com relação a Trump, começaram a nutrir esperanças.

Poucos dias depois do discurso, o partido de extrema direita Movimento Nacional pediu que o embaixador americano na Polônia retirasse seu apoio a uma parada de orgulho LGBT, citando colocações de Trump que sugeriam que a identidade cristã precisava ser defendida em todo o Ocidente.

Dois anos depois, o alinhamento a Trump se transformou em uma animosidade aberta entre os mesmos nacionalistas. 

A eleição dele e seus discursos posteriores inicialmente pareciam provar e legitimar "a visão desses grupos sobre uma identidade nacional", de acordo com Rafal Pankowski, cientista social e militante do grupo anti-extremismo Never Again. "Agora, o desapontamento é bastante visível. Alguns daqueles que inicialmente eram entusiastas de Trump agora o veem como uma ligação aos interesses judeus e de Israel."

Compensação pelo Holocausto

No sábado, 11, milhares de ativistas e apoiadores da extrema direita foram até a embaixada americana em Varsóvia para protestar contra uma lei assinada por Trump no ano passado, a 447, que tenta auxiliar judeus a obter compensações pelas propriedades que perderam durante o Holocausto.

A lei exige que oficiais do Departamento de Estado americano mantenham o governo informado sobre as restituições, mas não pune agentes estrangeiros por dificultar a compensação. No entanto, o partido direitista Lei e Justiça, que comanda o país, defende há anos que a Polônia foi vítima dos nazistas, que os poloneses não têm responsabilidade pelo Holocausto e que o país deveria ser ele próprio compensado, ao invés de dar compensação a outros povos.

Para Trump, que retrata a si mesmo como amigo de Israel e também do governo polonês, os protestos contra os Estados Unidos poderiam se tornar uma amostra dos riscos da colaboração global entre movimentos nacionalistas. Enquanto seu discurso em 2017 foi visto como marco da ascensão do "nacionalismo internacionalista", o protesto de sábado provou os limites de tal alinhamento. Um dos políticos que participou da manifestação, Janusz Korwin-Mikke, tem ligações com o Movimento Nacional, partido que há dois anos usava Trump como exemplo.

Historiadores concordam que a Polônia — um dos centros da vida judaica na Europa antes do Holocausto — sofreu imensamente com a ocupação nazista, e que as campanhas de extermínio também tiveram como alvo milhões de cristãos e outros grupos. Porém, ao mesmo tempo em que muitos poloneses argumentam que o sofrimento de seus ancestrais nunca foi suficientemente abordado ou compensado, pesquisadores sustentam que alguns poloneses colaboraram com o nazismo.

Enquanto diferentes visões da história explicam os recentes conflitos entre israelenses e poloneses na esfera diplomática, militantes de direitos humanos temem que as tensões tenham resultado em um aumento do discurso antissemita. Eles dizem que grupos nacionalistas de extrema-direita exploram a disputa para estimular visões contrárias aos judeus, que persistiram entre alguns grupos do país.

Durante a Páscoa, por exemplo, crianças da cidade polonesa de Pruchnik foram encorajadas por seus pais a queimar uma representação de Judas retratada com muitos estereótipos sobre o povo judeu, incluindo os cachos típicos de judeus ortodoxos (peiots) e um nariz grande. 

Enquanto o ministro polonês do interior, Joachim Brudziński, qualificou o incidente como "estúpido", críticos do governo dizem que altos funcionários públicos estão alimentando tais sentimentos indiretamente. Muitos outros, segundo Rafal Pankowski, ficaram em silêncio. "Não vejo uma grande mudança na atitude geral", disse ele.

Ao longo do fim de semana, agentes do governo polonês pareceram se alinhar a manifestantes nacionalistas ao cancelar a visita de uma delegação israelense prevista para segunda-feira, 13, em meio a especulações de que pedidos de restituição aos judeus surgiriam durante as reuniões.

"Americanos só pensam nos interesses judeus, não nos da Polônia”, disse à Associated Press o manifestante Kamil Wencwel, de 22 anos. Outro manifestante, de acordo com a AP, vestia uma camiseta na qual se lia: "Não vou me desculpar por Jedwabne". A cidade de Jedwabne foi palco de um massacre em 1941, no qual judeus foram mortos por seus vizinhos poloneses.

Os assassinatos permaneceram como uma mancha negra da história da Polônia, além de motivo de controvérsia sempre que se levanta a questão do envolvimento de poloneses em crimes nazistas. Membros de diferentes pontos do espectro político condenaram o então presidente americano, Barack Obama, quando ele falou em um "campo de assassinato polonês" em 2012, ao invés de utilizar a nomenclatura encorajada por autoridades do país, "campo nazista".

A retórica de Obama e outros exemplos parecidos resultaram em uma lei aprovada pelo Parlamento polonês no ano passado, que criminalizou referências à participação do país em atrocidades nazistas. No entanto, a atitude populista logo se tornou um obstáculo a outra promessa da extrema direita polonesa: persuadir o governo americano a abrir uma base militar no país para conter a Rússia.

O Departamento de Estado americano logo se tornou um dos maiores críticos da lei, alinhando-se às contundentes colocações israelenses. "Não se pode mudar a história, e o Holocausto não pode ser negado", disse no ano passado o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu.

Após meses de graduais recuos, a lei foi trazida de volta à discussão no verão passado, e depois, o governo da Polônia acenou a Trump propondo dar o nome dele à possível base militar americana.

O recuo enfureceu alguns eleitores da extrema direita, que viram a pressão dos Estados Unidos e de Israel como uma intromissão na política doméstica. O impacto dessa percepção — combinado ao ceticismo de longa data com os Estados Unidos por parte de grupos de extrema direita poloneses — estava à mostra no sábado, no que Pankowski chamou de "provavelmente a maior manifestação de que me lembro nos últimos anos" com mensagem anti-judaica./The Washington Post

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