ARQUIVO PESSOAL / NORMA PIÉROLA
ARQUIVO PESSOAL / NORMA PIÉROLA

Fã de Bolsonaro, deputada boliviana quer ser presidente da Bolívia

A deputada conservadora Norma Piérola se somou aos ex-presidentes Carlos Mesa e Jaime Paz Zamora como candidata à Presidência da Bolívia, para tentar impedir que Evo Morales obtenha um quarto mandato em 2019

O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2018 | 17h11

A deputada conservadora boliviana Norma Piérola tem o costume de atacar os adversários com virulência. Ela costuma chamar Evo Morales de "ditador nazifascista" e os correligionários do  presidente da Bolívia de "corruptos". Piérola se declarou fã incondicional do presidente eleito brasileiro Jair Bolsonaro. Ele será a inspiração de Piérola, que nesta quarta-feira, 1, decidiu concorrer à presidência da Bolívia, para tentar impedir que Evo Morales obtenha um quarto mandato nas urnas em 2019.

Piérola se somou aos ex-presidentes Carlos Mesa e Jaime Paz Zamora como candidata à Presidência da Bolívia. A boliviana anunciou que concorrerá apoiada por uma fração do nanico Partido Democrata Cristão (PDC), e disse que o desempenho de Bolsonaro e seu partido serão uma inspiração. Nesta quarta-feira, 1, ela agradeceu a Bolsonaro por "evidenciar os comportamentos criminais" dos ex-presidentes brasileiros Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e os "acordos internos e secretos" dos políticos do PT com Morales. No dia seguinte ao segundo turno das eleições do Brasil, ela deu parabéns ao parlamentar do PSL, exaltou a "luta titânica contra a narcorrupção e o ateísmo comunista" e pediu que Deus abençoasse o governo de Bolsonaro.

Única mulher na disputa, a um ano das eleições, a "bolsonarista" afirma que se lançou na corrida eleitoral com o objetivo de "reconstruir no país o respeito pleno à vida, à dignidade". A deputada ganhou notoriedade em 2015 ao recusar um cumprimento de Morales, que lhe havia estendido a mão durante uma cerimônia oficial.

Outra ala do PDC lançou Paz Zamora, o social-democrata que governou de 1989 a 1993, com apoio do ex-ditador Hugo Banzer, falecido em 2002, que comandou a Bolívia de 1971 a 1978 e de 1997 a 2001. Aos 79 anos, ele se lançou na disputa para se opor a um possível novo mandato de Morales até 2025. O ex-presidente propõe "uma reforma constitucional, pluriétnica, pluricultural" rumo a um "Estado federal".

No começo de outubro, o ex-presidente Carlos Mesa, que liderou o governo entre 2003 e 2005, anunciou a candidatura à Presidência. As sondagens de intenções de voto o mostram à frente de Morales, presidente desde 2006. É o único, até o momento, visto como capaz de aglutinar toda a oposição contra o atual chefe de governo e superá-lo na votação popular.

Morales perto do fim?

“Há um velho tempo que está acabando, que está esgotado, que cumpriu seu ciclo”, ressaltou o ex-presidente em alusão aos 12 anos de poder do mandatário indígena.

Mesa sucedeu o liberal Gonzalo Sánchez de Lozada, que renunciou ao cargo pressionado por manifestações populares. Desta vez, ele tem o respaldo do partido minoritário Frente Revolucionária de Esquerda (FRI), questionado por Morales.

"O FRI é o partido mais vira-casaca da história da Bolívia", afirmou na quarta-feira o presidente, em referência aos múltiplos acordos da sigla com legendas de diversas ideologias para formar as coalizões que a mantém no governo por mais de duas décadas.

Diferentemente do Brasil nos anos anteriores à eleição, a Bolívia está em uma boa fase econômica, com crescimento sustentado de 4% ao ano há 10 anos. Morales, ainda que desgastado por 12 anos no poder, tem uma base fiel, formada em grande parte por setores indígenas antes marginalizados e que ascenderam social e economicamente sob seu governo.

O presidente aposta em atribuir aos rivais o risco do "entreguismo" de riquezas nacionais. Segundo ele, que discursou em homenagem à nacionalização da mineração em 1952 nesta quarta-feira, os rivais estão de acordo "com as intenções dos Estados Unidos de tomarem posse dos recursos naturais do país". Ele defende que o povo evite a volta de liberais ao poder.

Aos 59 anos, Morales se declara "anti-imperialista". Durante o governo, estatizou hidrocarbonetos, telecomunicações, aeroportos, entre outros setores da economia. Sobre a campanha eleitoral, o presidente diz que "será povo versus império".

"A direita está buscando alianças, união, mas nós já estamos unidos, temos uma agenda e um programa. Eles só perdem o tempo deles", ressaltou.

Os candidatos devem concorrer em primárias partidárias em janeiro, enquanto ainda se debate a constitucionalidade da candidatura de Morales. Um referendo realizado em 21 de fevereiro de 2016 disse "não" à possibilidade de um quarto mandato do presidente. Apesar da decisão popular, o Tribunal Constitucional deu luz verde à participação dele na disputa, em polêmica deliberação.

A Bolívia deve ir às urnas em outubro de 2019 para eleger presidente e vice-presidente. O Congresso bicameral também será renovado no pleito. Com o bem-estar econômico e a estabilidade política sem precedentes, a oposição dividida calca sua estratégia eleitoral no resultado do referendo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.