Fábrica de linguiças e leis

As linguiças são produzidas segundo a receita e as partes inúteis vão para o lixo, mas no Congresso são aprovadas leis desnecessárias

Robert Pear, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2010 | 00h00

Ao defender seu trabalho, os congressistas adoram repetir uma citação atribuída a Otto von Bismarck: "Aqueles que gostam das leis e das linguiças jamais devem assistir ao seu processo de fabricação." Em outras palavras, apesar de desorganizado e pouco atraente, o processo legislativo pode produzir resultados saudáveis e nutritivos.

Mas uma visita à fábrica de linguiças Simply Sausage, a cerca de 15km do Capitólio, sugere que Bismarck e os políticos contemporâneos estão enganados. Sob muitos aspectos, a citação é uma verdadeira ofensa aos produtores de linguiça; a fabricação é melhor controlada e mais previsível.

As linguiças são produzidas de acordo com uma receita. Na Simply Sausage, ossos e demais partes indesejadas são despejadas numa lixeira e jogadas fora. No Capitólio, ideias estéreis são recicladas ano após ano.

É verdade que a Simply Sausage é uma pequena fabricante de linguiças artesanais, e não um abatedouro de larga escala. Mas a comparação ainda se mostra inadequada, disse Stanley A. Feder, presidente da Simply Sausage e cientista político que se tornou fabricante de linguiças depois de se aposentar da CIA. "Fazemos um tipo de linguiça de cada vez", disse ele. "O Congresso, por sua vez, costuma reunir leis num mesmo pacote e acrescentar a elas as emendas mais absurdas."

O deputado Mike Pence, de Indiana - que ocupa o terceiro posto na hierarquia republicana do Congresso -, queixou-se recentemente que o Congresso estava aprovando leis "tão desnecessariamente complicadas que nenhum ser humano seria capaz de lê-las até o fim da vida, quem dirá compreendê-las."

Os republicanos prometem mudanças para depois que assumirem o controle da Câmara em janeiro. No seu manifesto de campanha, eles disseram que publicariam na rede o texto de cada proposta de lei com pelo menos três dias de antecedência em relação à sua votação no Congresso. Prometeram que toda proposta "incluirá uma cláusula citando a autoridade constitucional específica" referente a ela.

Republicanos e democratas já apoiaram ideias parecidas, mas com frequência decidiram, na prática, que atingir suas metas políticas era mais importante do que observar as sutilezas do procedimento parlamentar.

Alan Rosenthal, professor de medidas públicas na Universidade Rutgers e ex-diretor do seu Instituto de Política Eagleton, disse que a metáfora das linguiças nunca foi tão inadequada. "Numa verdadeira fábrica de linguiças, todos fazem parte da mesma equipe para produzir a mesma coisa. No legislativo, metade das pessoas está interessada em não fazer linguiças. Ou então quer fazer outro tipo de linguiça. Nos últimos anos, os republicanos têm dito: "Não fabricaremos linguiças a não ser que possamos controlar a receita!"", disse Rosenthal,

"A produção de linguiças busca a uniformidade", disse Rosenthal. "No processo legislativo, a uniformidade é algo que nunca se viu." Levemos em consideração a nova lei do sistema de saúde. É uma legislação repleta de anomalias. As últimas 141 páginas emendam e repelem dispositivos cuja descrição se espalha pelas 763 páginas anteriores. O moedor de carne legislativo produz muitos embutidos estranhos.

No ano que vem, a fábrica de linguiças congressista estará sob nova direção. Mas é provável que os fabricantes de linguiça continuem a se sentir insultados. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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