AP Photo/Sakchai Lalit (30/03/2021)
AP Photo/Sakchai Lalit (30/03/2021)

Facção rebelde assume o controle de base militar em Mianmar

União Nacional Karen (KNU) confirmou ação militar na madrugada desta terça, 27; grupo retomou luta armada após o golpe de Estado em 1º de fevereiro

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2021 | 07h03

YANGON - Uma das facções rebeldes mais importantes de Mianmar, a União Nacional Karen (KNU) assumiu o controle de uma base militar no sudeste do país nesta terça-feira, 27. A ação do grupo provoca o temor de novos confrontos violentos com o exército.

Grupos armados intensificaram suas ações desde o golpe militar de 1º de fevereiro, que derrubou o governo da líder civil Aung San Suu Kyi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz. O confronto com os militares não se restringe aos rebeldes: uma resistência civil surgiu no país, em oposição ao golpe, sendo duramente reprimida.

Um dos líderes do KNU, Padoh Saw Taw Nee falou com a AFP, e confirmou a tomada da base militar na base da terça-feira: "nossas tropas tomaram a base". Ele não informou se a ação provocou vítimas.

O porta-voz da junta militar, Zaw Min Tun, confirmou o ataque e disse que "medidas serão adotadas" contra a brigada da KNU, responsável pelo ataque.

"Ninguém se atreve a ficar por medo de possíveis represálias do exército", afirmou à AFP Hkara, que mora na localidade tailandesa de Mae Sam Laep, do outro lado da fronteira.

A KNU afirma abrigar, no território que controla, quase 2.000 opositores ao golpe de Estado que fugiram de outras cidades do país, após a violenta repressão das forças de segurança.

Milhares de deslocados

No fim de março, esta facção rebelde assumiu o controle de uma base militar e matou 10 soldados. O exército respondeu com ataques aéreos contra redutos da KNU, pela primeira vez em 20 anos nesta região do país. Quase 24.000 civis abandonaram suas casas.

Desde a independência de Mianmar em 1948, muitas facções étnicas lutam contra o governo central para obter mais autonomia, acesso aos recursos naturais ou a uma parte do lucrativo tráfico de drogas.

A partir de 2015, o exército alcançou um acordo nacional de cessar-fogo com 10 grupos, incluindo a KNU. Mas com a repressão contra os manifestantes que não aceitam o golpe, algumas facções ameaçaram retomar as ações.

Mais de 750 civis morreram em operações das forças de segurança nos últimos dois meses, de acordo com a Associação de Ajuda aos Presos Políticos (AAPP). Na segunda-feira à noite, um vendedor morreu ao ser atingido por um tiro no peito em Mandalay (centro).

A AAPP teme ainda o aumento dos abusos contra a comunidade LGBTIQ. A associação denunciou o caso de uma mulher transexual humilhada e agredida durante sua detenção.

'Lei e ordem'

A mobilização e campanha de desobediência civil continuam, apesar da repressão. Pequenos grupos de manifestantes saíram às ruas novamente nesta terça-feira. Os ativistas também publicaram fotos nas redes sociais com os rostos pintados com mensagens contra a junta: "Libertem os detidos!", "Respeitem nossa votação".

O comandante do exército, general Min Aung Hlaing, justificou o golpe com a alegação de supostas fraudes nas eleições legislativas de novembro, vencidas pelo partido de Suu Kyi.

O general fez sua primeira viagem ao exterior desde o golpe. Ele compareceu no fim de semana a uma reunião de cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), que terminou com a divulgação de um documento de cinco pontos para tentar acabar com a violência e promover o diálogo.

As autoridades birmanesas indicaram nesta terça-feira que examinarão "cuidadosamente as sugestões construtivas" da Asean, mas que "sua prioridade no momento é manter a lei e a ordem".

O ex-presidente americano Barack Obama pediu na segunda-feira aos países vizinhos de Mianmar que "reconheçam que um regime assassino rejeitado pela população apenas provocará maior instabilidade e uma crise humanitária" na região./ AFP

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