Ali Haider/EFE
Ali Haider/EFE

'Face afável' do regime de Saddam irá à forca

Iraque sentencia à morte Tarek Aziz por responsabilidade na perseguição política na década de 1990 contra o Dawa, atual partido governista

, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2010 | 00h00

BAGDÁ

O ministro mais poderoso de Saddam Hussein, Tarek Aziz, foi condenado à morte, na manhã de ontem, por um tribunal iraquiano por estar pessoalmente envolvido no assassinato, depois da primeira guerra do Golfo, de membros do partido religioso islâmico xiita Dawa, que hoje está no comando do Iraque.

Aziz, ex-vice-primeiro-ministro do Iraque e durante muito tempo o rosto mais conhecido do país no mundo, foi condenado com outros quatro homens, todos acusados de perseguir e matar membros do Partido Dawa, principal grupo de oposição a Saddam, durante os 24 anos de seu governo.

Aziz, de 74 anos, foi entregue pelas forças americanas à polícia do Iraque neste ano. Sua família definiu a sentença de morte como uma "farsa" e disse que o tribunal que o condenou não passou de um teatro. Aziz poderá enfrentar outras condenações à morte nas próximas semanas.

Segundo Sahab, nem todas as acusações contra Aziz são relacionadas ao Dawa, partido que hoje é fundamental no governo iraquiano e é liderado pelo primeiro-ministro Nuri al-Maliki, que realiza uma intensa campanha para a reeleição.

Aziz havia sido condenado anteriormente a 15 anos de prisão por estar envolvido na morte de 42 comerciantes que haviam sido acusados de manipulação dos preços dos alimentos. Ele recebeu uma segunda condenação a sete anos pela transferência forçada de curdos do norte do Iraque. O último processo começou no dia 6 de agosto.

Em uma entrevista na prisão a primeira desde a queda de Bagdá, Aziz disse: "Se eu cometi um crime contra algum civil, militar ou religioso? A resposta é não. Fui membro do Conselho do Comando Revolucionário, um líder do Partido Baath, vice-premiê, chanceler", disse, antes de afirmar que era impotente diante da vontade de Saddam. "Todas as decisões foram tomadas pelo presidente Saddam Hussein. Tinha uma posição política, não participei de nenhum dos crimes que me foram atribuídos. Em centenas de acusações, ninguém me citou".

O filho de Aziz, Ziad, que foi levado para Amã pelas forças americanas em troca da rendição do pai, em abril de 2003, definiu a sentença como uma farsa, e disse que o tribunal que o condenou não passou de um teatro. "Nenhuma das vítimas o acusou das matanças ou fez alguma queixa contra ele", afirmou. "Meu pai foi vítima do Partido Dawa. Seus membros tentaram assassiná-lo durante a década de 1980. O que está acontecendo é que Maliki quer vingar-se das acusações contidas nos WikiLeaks".

O Vaticano pediu ontem a Bagdá que a sentença contra Aziz, que é cristão, não seja executada - em benefício da "reconciliação dos iraquianos". / THE GUARDIAN

PERFIL

O embaixador do ditador

Tarek Aziz, ex-vice e ex-chanceler de Saddam Hussein

Tarek Aziz ficou conhecido no mundo por seu inglês fluente enquanto ocupava o cargo de chanceler e vice-premiê iraquiano durante a primeira Guerra do Golfo, em 1991. Foi o único cristão em um governo comandado por muçulmanos sunitas. Na década de 1980, garantiu o apoio dos EUA na guerra contra o Irã e restaurou as relações entre os dois países, após encontro com o presidente Ronald Reagan. Entregou-se às tropas dos EUA logo após a invasão, em 2003.

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