AP Photo/Sebastian Scheiner
AP Photo/Sebastian Scheiner

Protesto contra embaixada dos EUA em Jerusalém deixa 59 palestinos mortos

Confronto começou após multidão tentar cruzar a cerca na fronteira e lançar pedras contra soldados israelenses, que responderam com tiros; pelo menos 2.700 pessoas ficaram feridas

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2018 | 05h42
Atualizado 15 Maio 2018 | 04h16

Ao menos 59 palestinos morreram nesta segunda-feira em confrontos com forças israelenses na fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel, que não registrou nenhuma baixa civil ou militar. O confronto ocorreu em meio à inauguração da Embaixada dos EUA em Jerusalém, decisão condenada de maneira quase unânime por líderes mundiais.

+ Em meio a protestos em Gaza, EUA inauguram embaixada em Jerusalém

Milhares de palestinos se reuniram na manhã desta segunda-feira para protestar contra a mudança da representação diplomática, que até ontem ficava em Tel-Aviv, como as demais embaixadas no país. Por meio de alto-falantes, representantes do Hamas, que governa Gaza, disseminaram o falso rumor de que a cerca que separa o território de Israel havia sido rompida, o que permitiria que palestinos entrassem no país.

Impossibilitados de atravessar a barreira, muitos atiraram pedras e bombas incendiárias na direção dos soldados israelenses, que responderam com tiros, no mais sangrento dia na região desde o conflito de 2014, no qual pelo menos 2.125 palestinos morreram ao longo de seis semanas. Pelo menos 2.700 pessoas ficaram feridas ontem, segundo o Hamas.

+ Para manifestante de Gaza, viver ou morrer é a ‘mesma coisa’

Na madrugada desta terça-feira, 15, o Ministério da Saúde do enclave, informou a morte de uma nova vítima, um bebê de oito meses - Leila Al Ghandu - que foi intoxicada pela inalação de gases lacrimogênios. 

A Turquia qualificou as mortes de “massacre” e responsabilizou Israel e os EUA pela violência. O Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos exigiu o fim imediato das mortes em Gaza por disparos israelenses. A Anistia Internacional condenou o uso “excessivo da força” e declarou que alguns dos casos podem constituir crimes de guerra.

+ Forças israelenses matam 3 manifestantes e deixam centenas de feridos na fronteira de Gaza

+ Confrontos violentos entre palestinos e soldados de Israel marcam 3ª semana de protestos em Gaza

A emissora Al-Jazeera afirmou que um de seus repórteres ficou ferido enquanto cobria as manifestações. O jornalista Wael Dhadouh foi "ferido por munição real das forças israelenses", disse a emissora em sua conta no Twitter, sem detalhar a gravidade dos ferimentos.

Em discurso na cerimônia de inauguração da representação diplomática, o genro de Trump, Jared Kushner, responsabilizou os palestinos pelos choques. “Como vimos nos protestos dos últimos dias, os que provocam violência são parte do problema, não da solução”, afirmou. Muitas TVs americanas dividiram suas telas com imagens da cerimônia e dos confrontos. 

“Jerusalém é a capital eterna e indivisível de Israel”, declarou o premiê israelense, Binyamin Netanyahu. “Estamos em Jerusalém e estamos aqui para ficar”, afirmou, fazendo referência à cidade que tem lugares considerados sagrados por judeus, muçulmanos e cristãos. 

Disputa. A decisão de Trump de mudar a embaixada foi condenada por inúmeros líderes estrangeiros, pois os palestinos reivindicam Jerusalém Oriental como capital de seu futuro Estado. Anexada por Israel em 1967, a região é considerada um território ocupado pela comunidade internacional. Resoluções da ONU estabeleceram que o status final de Jerusalém deve ser definido por negociação entre os dois lados. 

Kushner, marido de Ivanka Trump, foi nomeado pela Casa Branca para conduzir as conversas de paz entre Israel e os palestinos, interrompidas desde dezembro. No entanto, para os palestinos e muitos analistas, os EUA perderam a credibilidade para atuar como um mediador isento no conflito. “Os EUA continuam totalmente comprometidos a facilitar um acordo de paz duradouro”, garantiu Trump em discurso transmitido por vídeo durante a cerimônia.

Desde domingo, o Exército israelense lançou panfletos em Gaza para advertir os palestinos que participam das manifestações que, ao fazê-lo, se expõem ao perigo. Ele também afirmou que não permitirá que os manifestantes se aproximem da cerca de segurança ou ataquem os soldados.

As Forças Armadas israelenses acusaram o movimento Hamas, que controla Gaza, de instigar os palestinos a tentar violar a fronteira de Israel. Como resposta, a aviação israelense bombardeou posições do Hamas perto da região de Jabalia. Nenhum soldado ficou ferido, segundo um comunicado do Exército.

A nota diz ainda que os israelenses "frustraram um ataque terrorista" ao disparar contra três palestinos que "tentaram colocar um artefato explosivo junto a uma cerca de segurança na área de Rafa", e confirmou a morte dos supostos agressores.

Mais de 90 palestinos morreram vítimas de tiros israelenses nos protestos registrados na fronteira entre Gaza e Israel desde o dia 30 de março. Esta é a fase mais mortífera do conflito desde a guerra de 2014 no enclave.

Reações

A Autoridade Palestina acusou Israel de cometer um "horrível massacre". Yusuf al-Mahmud, porta-voz do órgão, pediu em um comunicado "uma intervenção internacional imediata para frear o horrível massacre em Gaza cometido pelas forças israelenses de ocupação contra nosso povo heroico".

Uma comissão da ONU encarregada de combater o racismo pediu a Israel que "pare imediatamente o uso desproporcional" da força contra manifestantes palestinos. Em uma declaração por escrito, o Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial "insta o Estado parte (Israel) a encerrar imediatamente o uso desproporcional da força contra manifestantes palestinos, a se abster de qualquer ato que possa causar novas vítimas e garantir que as vítimas palestinas tenham acesso rápido e livre aos cuidados médicos".

Os EUA, por sua vez, culparam os líderes do Hamas pela violência em Gaza e disseram que Israel tem o direito de se defender. "Não há justificativa para a imprudência e o cinismo que o Hamas tem mostrado ao incitar as pessoas a se envolver em violência, expondo-os a um risco terrível. Como disse o secretário de Estado, Israel tem o direito de se defender", afirmou um porta-voz da Casa Branca em um comunicado.

Greve

Gaza vive nesta segunda-feira um dia de protestos e greve geral, com adesão massiva, em razão da mudança da embaixada americana para Jerusalém, que representa um reconhecimento da cidade como capital de Israel, contra o consenso internacional que valia até agora.

Escolas, universidades, bancos, lojas e instituições públicas fecharam as portas. No começo da manhã, alguns pneus foram queimados nos principais cruzamentos da capital, onde quase não há carros circulando.

Caminhões e ônibus, por outro lado, estão em vários pontos de Gaza e outras cidades para buscar os moradores e levá-los às fronteiras com Israel, onde foram convocadas manifestações. Além disso, a partir de alto-falantes, as mesquitas convocam a população a participar e se unir aos protestos, pedindo 1 milhão de pessoas nas ruas. / AFP, REUTERS, EFE e AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.