AP Photo/Juan Karita
AP Photo/Juan Karita

Fake news na Bolívia alimentam hostilidades

Segundo a polícia, redes sociais têm sido usadas para incitar a violência entre grupos políticos opositores

Ricardo Galhardo, enviado especial, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2019 | 22h00
Atualizado 18 de novembro de 2019 | 11h02

SANTA CRUZ DE LA SIERRA - Desde a renúncia de Evo Morales no dia 9, a cidade de Yapacaní, no Departamento de Santa Cruz, tem sido alvo de confrontos entre cocaleiros apoiadores do ex-presidente e moradores locais. Um jovem de 20 anos morreu, vítima de arma de fogo, e várias casas e instalações públicas, entre elas a única rádio local e o posto da Polícia Nacional, foram incendiadas. Vinte e oito pessoas estão presas. 

Os cocaleiros vindos de Chapare, no Departamento de Cochabamba, estavam acampados no entorno da cidade e bloquearam a ponte que dá acesso a Yacapaní duas semanas atrás, mas não havia registro de incidentes violentos até que no dia 10 adversários de Evo distribuíram via WhatsApp um vídeo no qual comemoravam efusivamente a renúncia do ex-presidente. A postagem desencadeou a onda de violência que levou à morte do jovem.

Segundo fontes da polícia, o caso de Yapacaní é um exemplo de como as redes sociais têm sido usadas para incitar a violência entre grupos políticos opositores. “Estamos com muita dificuldade para lidar com isso. As pessoas não conseguem distinguir o que é verdade do que é mentira”, disse um oficial. Segundo ele, uma das condições colocadas pelos cocaleiros para desarmar o bloqueio foi um pedido de desculpas formal pelo vídeo postado. 

“Nossa gente se sentiu extremamente ofendida com aquele vídeo. Aquilo é uma provocação”, disse ao Estado o cocaleiro Hugo Casas, que ajuda a manter o bloqueio em Yapacaní. 

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Uma tentativa de acordo mediada neste domingo, 17, pela polícia fracassou e o bloqueio continua, ameaçando a cidade de desabastecimento de comida e outros itens básicos.

No domingo, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) divulgou um balanço de 23 mortos desde o início da crise boliviana, no dia 21, e classificou como “grave” um decreto assinado pela autoproclamada presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, que autoriza as Forças Armadas a usarem “todos os recursos” para controlar distúrbios de ordem política e isenta militares de responsabilidade penal em casos de “cumprimento de suas funções Constitucionais, ataque em legítima defesa ou estado de necessidade”.

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O decreto foi assinado um dia antes de 9 cocaleiros serem mortos a tiros pela polícia de Cochabamba quando tentavam furar um bloqueio. O ministro da Presidência, Jerjes Justiniano, negou que o documento seja um estímulo à violência. “De nenhuma maneira o decreto é uma licença para matar. É um elemento dissuasivo. O que o governo pretende é evitar os confrontos que podem levar a mais mortes”, afirmou.

Desde o início da crise uma avalanche de notícias falsas tem invadido as redes sociais bolivianas. Uma delas dava conta da queda de um avião com um ex-ministro de Evo com dólares e armas na fronteira com o Brasil. Outras citavam uma conta falsa de Jeanine, que também foi alvo de montagens em vídeo. No início da semana passada, imagens de opositores de Evo queimando uma wiphala (a bandeira multicolorida que representa o orgulho indígena) provocou protestos violentos em La Paz.

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