''Falcão'' supervisionará diplomacia de Obama

Nova chefe da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, republicana anticastrista Ileana Ros-Lehtinen promete 'moralizar' política externa dos EUA

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

Desde o dia 1.º, a política externa do presidente Barack Obama tem um obstáculo a mais, especialmente em relação à América Latina. Seu nome é Ileana Ros-Lehtinen, republicana da Flórida, primeira deputada hispânica dos EUA - conhecida também por ter defendido o assassinato de Fidel Castro e recebido doações de campanha de colonos israelenses -, que acaba de assumir a chefia da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

Com a vitória na eleição legislativa de novembro, os republicanos tornaram-se majoritários na Câmara e ganharam o direito de liderar a comissão da Casa que supervisiona a diplomacia. Ileana promete aplicar no campo da política externa as duas diretrizes que deram ao Partido Republicano o triunfo nas urnas: travar a agenda de Obama e "moralizar" o orçamento.

Em menos de um mês, a republicana nascida em Havana já deu pistas de como pretende alcançar esses objetivos. Ileana defendeu um corte no financiamento dos EUA à ONU, exigindo que só programas e agências "condizentes com valores americanos" recebam dinheiro. O Conselho de Direitos Humanos, criado em 2006, "deve ser extinto", disse.

Quando o presidente chinês, Hu Jintao, esteve em Washington, há duas semanas, a deputada deu-lhe uma lista de denúncias de violações de direitos humanos, apelou pelos "7 milhões de chineses em campos de trabalho" e, à imprensa, disse que o convidado era um "monstro".

Na mesma semana, Ileana condenou o hasteamento da bandeira da Autoridade Palestina na missão de Ramallah, em Washington, chamando a atenção para o "terrorismo histórico da OLP" e para o fato de Taiwan não ter o mesmo direito. O Itamaraty foi qualificado de "irresponsável" por ter reconhecido, em dezembro, o Estado palestino. A republicana disse que não receberia representantes de países latino-americanos que seguissem o exemplo de Brasília.

Um mês antes de assumir a chefia da Comissão de Relações Exteriores, Ileana já havia conseguido enterrar um projeto de lei que obrigaria os EUA a combater casamentos forçados entre crianças. Para ela, a legislação abriria brecha para gastos desnecessários e o dinheiro poderia ser usado para financiar abortos.

Latinos. Mas a pedra de toque tanto da vida privada quanto da carreira política de Ileana é a dura oposição ao regime castrista. "Ela vê o mundo através das lentes da questão cubana", diz Michael Shifter, presidente do centro de estudos Diálogo Interamericano. "Ileana julga os governos tendo por base a forma como eles se relacionam com Cuba."

A oposição a Havana faz de Ileana um dos principais "falcões" de Washington em relação à América Latina. Pouco após o golpe em Honduras, a deputada foi a Tegucigalpa se solidarizar com o presidente de facto, Roberto Micheletti. Ela critica Obama por evitar o bate-boca com o boliviano Evo Morales e com o venezuelano Hugo Chávez, e pretende aprovar leis que "garantam" a proteção de propriedade americana na Venezuela.

"Nos coquetéis entre diplomatas, em Washington, existe uma preocupação generalizada em relação a Ileana e ao novo Congresso", admite o funcionário de um governo latino-americano que trabalha nos EUA.

Shifter, porém, diz que ela "também sabe ser pragmática". O maior exemplo seria a proposta de Connie Mac, outro deputado republicano da Flórida, de incluir a Venezuela na lista de países que patrocinam o terrorismo. Em nome dos investimentos americanos e do petróleo de Chávez, Ileana é contra a entrada de Caracas na lista negra.

Esse pragmatismo também deve moderar a relação entre a nova chefe da Comissão de Relações Exteriores e o Brasil, prevê o analista. Embora desconfie do Itamaraty - sobretudo após a aproximação com o Irã -, Ileana reconhece o País como um poder emergente na região, cada vez mais decisivo.

Para o analista Michael Barone, referência no estudo do Congresso dos EUA, o antecessor de Ileana, o democrata Howard Berman (Califórnia), era capaz de emplacar uma agenda bipartidária que dificilmente sobreviverá sob o comando da republicana.

Mas, mesmo sob Berman, a comissão "atropelou" a Casa Branca, ao endurecer - contra a vontade do governo - as sanções unilaterais ao Irã. O domínio da Comissão de Relações Exteriores pela oposição, completa Barone, é "parte do jogo", inevitável quando o presidente não tem controle sobre a Câmara.

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