Falemos de dinheiro

O quanto você sabe a respeito de dinheiro? Vejamos. Responda, por favor, a estas três perguntas: 1 - Suponha que você tem US$ 100 numa conta de poupança em seu banco e a taxa de juros paga nesta conta é de 2% ao ano. Depois de cinco anos, qual será o montante na conta, supondo que nunca foram feitas retiradas? a) Mais de US$ 102; b) Exatamente US$ 102; c) Menos de US$ 102; d) Não sei.

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2014 | 02h07

2 - Suponha que a taxa de juros paga sobre seu dinheiro em poupança é de 1% ao ano e a taxa anual de inflação é de 2%. Depois de um ano, você poderá comprar: a) Mais do que poderia comprar hoje com o que tem na poupança; b) Exatamente o mesmo; c) Menos; d) Não sei.

3 - Comprar ações de uma única empresa costuma oferecer rendimento mais seguro do que comprar ações de um fundo que investe em diferentes empresas. Você acha que esta afirmação é certa, errada ou não sabe?

As respostas corretas são: 1 - A, 2 - C e 3 - Falsa. Como foi o teste? Na Rússia, 96% dos entrevistados não responderam corretamente às três perguntas. Nos EUA, meca do capitalismo, somente 30% responderam todas corretamente. Os que se saíram melhor foram os alemães (53% responderam as três corretamente) e os suíços (50%).

Assim, mesmo em países com os melhores resultados, a metade ou mais da população não foi bem no exame. Pior ainda, 75% dos italianos, 79% dos suecos, 69% dos franceses e 73% dos japoneses não souberam responder corretamente às três perguntas.

Esses dados sobre a precariedade do conhecimento financeiro foram apresentados recentemente pelas economistas Annamaria Lusardi e Olivia Mitchell. O estudo delas é alarmante porque mostra que a ignorância financeira generalizada coexiste com um mundo onde cada vez mais é necessário saber administrar o seu dinheiro.

A proliferação de cartões de crédito, a popularização de hipotecas, de créditos estudantis e empréstimos ao consumidor para compra de carros e aparelhos domésticos, a facilidade com a qual os pequenos investidores compram ações nas bolsas de valores são apenas algumas das realidades que tornam o analfabetismo financeiro cada vez mais perigoso. E mais importante ainda: em países menos desenvolvidos a classe média é mais numerosa do que nunca.

A melhor situação econômica dessa nova classe média estará correndo perigo na medida em que seus integrantes não souberem administrar seus gastos, proteger suas economias ou rechaçar as tentadoras propostas de investimento que comportam riscos catastróficos. Nos países desenvolvidos afetados pela crise financeira, a necessidade de administrar melhor o dinheiro também ficou mais aguda.

Annamaria e Olivia concluíram que as pessoas com menor nível de educação melhoram em cerca de 82% sua situação econômica quando obtêm mais conhecimento sobre como manejar seu dinheiro. Apesar disso, o interesse em aprender mais a respeito não é muito grande, uma vez que a maior parte das pessoas acha-se muito mais capacitada em assuntos financeiros do que realmente está.

Quando a pergunta foi feita a um grupo de americanos que deveriam classificar seus conhecimentos financeiros com nota de 1 (muito baixo) a 7 (muito alto), 70% se qualificaram com nível superior a 4. Mas somente 30% responderam às perguntas corretamente. O mesmo ocorreu na Alemanha e na Holanda. As pesquisas também revelaram que idosos, mulheres e indivíduos mais pobres têm o menor nível de conhecimento financeiro.

No entanto, é grande a distância entre o muito que acreditam saber e o pouco que realmente demonstram saber. Uma outra diferença é que os homens mostram ter mais conhecimento financeiro do que as mulheres, independentemente da idade ou nível de educação.

Embora o número de mulheres que não responderam corretamente às perguntas seja maior do que a dos homens, elas foram mais propensas a responder "Não sei", fato que se repetiu em todos os países. Essa consciência maior de suas limitações indica que as mulheres poderiam estar mais dispostas do que os homens a participar de programas de educação financeira.

Em todo caso, as pesquisas confirmam a urgente necessidade de se lutar contra o analfabetismo financeiro no mundo. É óbvio que é preciso oferecer programas de educação financeira que sejam práticos e acessíveis às milhões de pessoas em todo o mundo cuja situação econômica poderia estar muito melhor se soubessem administrar seu dinheiro.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É escritor venezuelano e Senior Associate do Carnegie Endowment em Washington

Mais conteúdo sobre:
Moisés Naím

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.