Falsa demissão lança holofote sobre tragédia síria

A embaixadora da Síria em Paris, Lamia Shakkour, anunciou em uma TV francesa que estava se demitindo em protesto contra o ciclo de violência que devasta seu país. O anúncio correu o mundo. Era o primeiro embaixador sírio com coragem para deixar seu posto e declarar em público que o presidente sírio, Bashar Assad, vem massacrando seu povo há três meses. A notícia era importante. O problema é que era falsa. A embaixadora desmentiu o fato. Na verdade, é preciso saber como essa falsa demissão pode ser levada a sério: a pessoa que se fez passar pela embaixadora, no programa, falava muito mal o francês, enquanto que a verdadeira embaixadora é filha de um antigo embaixador da Síria da França e fala perfeitamente a língua francesa.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2011 | 00h00

Essa manipulação pelo menos teve o mérito de direcionar os holofotes para a Síria. E levantou um pouco o véu que oculta a tragédia síria, invisível e silenciosa, pois s jornalistas estrangeiros foram proibidos de cobrir a situação.

Às vezes, o poder sírio admite seus desatinos. E o faz para intimidar este inimigo , que é todo um povo em cólera. Os torturadores arrancaram as unhas e os dentes de meninos de 12 anos que reproduziram os mesmos slogans que as multidões usaram na Tunísia e Egito. Uma criança foi jogada na prisão, torturada e o seu corpo irreconhecível foi entregue à família. O objetivo: aterrorizar os pais para que controlem os filhos revoltados.

Nos últimos dias, a cidade de Jis al-Shughour, foi cercada por soldados. Em seguida, policiais foram abatidos. Dizem que foram 120. Mas sem dúvida o número é muito menor. E não se sabe se o crime foi cometido por forças do governo ou pelos democratas revoltados. O drama já dura três meses e mais de 1.100 civis foram mortos.

Uma questão intriga. Por que os ocidentais não se mexem, enquanto que no caso da Líbia, franceses e britânicos lançaram-se como tigres sobre o coronel Kadafi? A resposta é simples: A Síria incute medo. Atacar a Síria significa deparar com o temido Irã, o melhor aliado estratégico dos sírios. E pode também desestabilizar o vizinho Líbano.

Barack Obama e Nicolas Sarkozy concordam agora que é preciso tentar acabar com Assad. E como? Os ocidentais pretendem apresentar um projeto de resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando a violência e a repressão. Mas a Rússia, que tem poder de veto, é contra qualquer tipo de pressão sobre a Síria. Para a França, deve-se apresentar uma resolução para obrigar a Rússia a se manifestar: ou ela adere ao bom senso e ao humanismo, ou se coloca do lado dos carrascos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.