Bryan Derballa/NYT
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'Falso profeta' torna-se uma estrela para a direita americana

Médico Vladimir Zelenko promoveu na internet uma possível cura para o coronavírus e ganhou a atenção da mídia e de lideranças políticas ao redor do mundo

Kevin Roose e Matthew Rosenberg, The New York Times

04 de abril de 2020 | 07h00

No mês passado, os moradores de Kiryas Joel, uma vilarejo nova-iorquino de 35 mil judeus hassídicos a cerca de uma hora de carro de Manhattan, começaram a ouvir sobre um tratamento promissor para o coronavírus que vinha se espalhando pela comunidade. 

A fonte era Vladimir Zelenko, de 46 anos, um gentil médico de família com consultório próximo à vila. Desde o início de março, ele tratava pessoas com sintomas semelhantes aos do coronavírus e desenvolveu um tratamento experimental que combina um medicamento antimalárico chamado hidroxicloroquina, o antibiótico azitromicina e sulfato de zinco. 

Depois de testar esse coquetel de três medicamentos em centenas de pacientes, alguns dos quais apresentavam apenas sintomas leves ou moderados quando chegaram, Zelenko afirmou que 100% deles sobreviveram ao vírus sem hospitalizações e sem necessidade de usar ventilador pulmonar.

"Estou vendo resultados extremamente positivos", disse ele em um vídeo de 21 de março, dirigido ao presidente Donald Trump publicado no YouTube e no Facebook. 

O que aconteceu em seguida é uma moderna parábola pandêmica que ilustra como o coronavírus está colidindo com nosso frágil ecossistema de informações: uma mistura de fatos, mentiras e rumores virais baseados em threads do Twitter e trechos de notícias online, amplificadas por especialistas de poltrona e profissionais partidários e disseminadas na velocidade acelerada das redes sociais.

O tratamento de Zelenko surgiu em um momento útil para Trump e seus apoiadores na imprensa, que, às vezes, pareciam mais interessados em discutir curas milagrosas do que o atraso em testar casos suspeitos ou a escassez de ventiladores pulmonares.

Sean Hannity, o apresentador da Fox News, promoveu rapidamente as declarações de Zelenko em seus programas de TV e rádio. Mark Meadows, o novo chefe de gabinete da Casa Branca, ligou para Zelenko para perguntar sobre seu plano terapêutico. E Rudy Giuliani, advogado pessoal de Trump, o elogiou em uma entrevista em podcast esta semana por "pensar em soluções, assim como o presidente".

Poucas pessoas têm tanta esperança em relação à hidroxicloroquina quanto Trump, que a promove com entusiasmo há semanas como "muito eficaz" e possivelmente "a maior mudança na história da medicina" - mesmo enquanto especialistas em saúde alertavam que mais pesquisas e testes são necessários. 

Isso não intimidou os apoiadores de Trump, que criticaram autoridades de saúde pública como Anthony Fauci, chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e o mais franco defensor de medidas emergenciais contra o vírus. Em vez disso, alguns estão depositando suas esperanças em Zelenko e em seu plano de tratamento não comprovado, que já foi visualizado por milhões.

Em uma entrevista por telefone em sua casa, onde ele se isolou, Zelenko descreveu uma semana estonteante, cheia de telefonemas da imprensa e de autoridades de países como Israel, Ucrânia e Rússia, todos buscando informações sobre seu tratamento. Alguns líderes mundiais, incluindo o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, também estão falando sobre os mesmos medicamentos como uma cura para o coronavírus.

"É um momento muito surreal", disse Zelenko, que atua como médico há 16 anos. "Sou um simples médico de uma vila, você sabe. Eu não tenho conexões."

A disseminação online de seu plano terapêutico pode ter consequências no mundo real, já que os países consideram testar os medicamentos que ele recomenda em pacientes. Sua popularidade também estimulou a escassez de hidroxicloroquina, usada no tratamento de lúpus, artrite reumatoide e outras doenças crônicas.

Na comunidade hassídica de Nova York, a fama repentina de Zelenko causou tensões. Logo depois que ele postou o vídeo no YouTube, um grupo de autoridades da vila escreveu uma carta aberta pedindo que ele parasse. Eles disseram que ele havia exagerado a extensão do surto de coronavírus em Kiryas Joel, usando uma pequena amostra de seus pacientes para prever que 90% dos moradores da vila seriam infectados pelo vírus. 

"Os vídeos de Zelenko causaram um medo generalizado que resultou na discriminação contra integrantes da comunidade hassídica em toda a região”, escreveram as autoridades, contestando a exposição do médico.

Críticos acusaram Zelenko de se antecipar à pesquisa científica. Vários pequenos estudos, incluindo um controverso francês com 20 pacientes com coronavírus, descobriram que a hidroxicloroquina pode ser eficaz contra o coronavírus. Nesta semana, médicos na China disseram que isso ajudou a acelerar a recuperação de um pequeno número de pacientes que estavam levemente doentes com o coronavírus. Mas outros estudos contradizem esses achados ou foram inconclusivos.

Zelenko, que soube há dois anos que tinha uma forma rara de câncer, não foi o primeiro médico a recomendar o tratamento do coronavírus com hidroxicloroquina e azitromicina, embora tenha sido um dos primeiros a recomendar que eles sejam administrados a pacientes com apenas sintomas leves. Ele disse que, embora estivesse otimista, era muito cedo para dizer se os medicamentos funcionam.

Mas as esperanças de uma cura milagrosa aumentaram à medida que o coronavírus se propaga, e Trump e seus aliados não estão aguardando o término dos ensaios clínicos. Uma análise realizada pela Media Matters na semana passada identificou que a Fox News havia promovido a hidroxicloroquina e a cloroquina como cura para o coronavírus mais de 100 vezes em três dias. 

As empresas de tecnologia começaram a reprimir as publicações hiperbólicas sobre os medicamentos. Na semana passada, o Twitter removeu um tweet de Giuliani que dizia que a hidroxicloroquina era "100% eficaz" no tratamento da covid-19, a doença causada pelo coronavírus. O Facebook e o Twitter nesta semana excluíram um vídeo de Bolsonaro alegando que a droga "está funcionando em todos os lugares". Mais tarde, o YouTube deletou o vídeo de Zelenko, dizendo que ele violava as diretrizes da comunidade do site.

Zelenko, que disse que apoiava Trump, se recusou a discutir suas opiniões políticas em detalhes, dizendo que eram "irrelevantes" para suas descobertas médicas. 

Os moradores começaram a sentir sintomas de coronavírus no início de março. Dias depois, Zelenko começou a tratar pacientes com sua combinação de três medicamentos e viu muitos deles melhorarem, então criou uma conta no YouTube e publicou o vídeo dirigido a Trump.

"Na época, era uma descoberta totalmente nova, e eu a via como um comandante no campo de batalha", disse ele sobre o vídeo. "Percebi que precisava falar com o general cinco estrelas." 

A hidroxicloroquina, vendida sob a marca Plaquenil, começou a esgotar em muitas farmácias em todo o país. Alguns sistemas de saúde começaram a reservar seus suprimentos para pacientes com coronavírus, privando aqueles que tomam o medicamento por outras condições. Pelo menos quatro estados restringiram as prescrições de hidroxicloroquina para evitar que as pessoas fizessem estoque.

HCQ, como a hidroxicloroquina é conhecida, é geralmente considerado seguro para uso clínico. Mas pode ser arriscado se os pacientes se automedicarem. No mês passado, um homem do Arizona morreu após ingerir um tipo de tratamento de parasitas para peixes que listava o fosfato de cloroquina como um de seus ingredientes.

"Você não quer que as pessoas estoquem isso em casa", disse Dena Grayson, executiva de biotecnologia que ajudou a desenvolver medicamentos para o ebola e outras epidemias. "Se você ficar doente, precisará tomar isso sob supervisão cuidadosa de um médico para garantir que não morra".

Nesta semana, a Food and Drug Administration (FDA) - a agência que regulamenta os medicamentos nos Estados Unidos - emitiu uma autorização de uso emergencial para hidroxicloroquina e cloroquina, permitindo que os médicos prescrevessem as substâncias aos pacientes com coronavírus. A cientista e chefe da agência, Denise Hinton, escreveu na ordem de autorização que os medicamentos "podem ser eficazes no tratamento da covid-19". Nova York também iniciou recentemente ensaios clínicos de hidroxicloroquina combinada com azitromicina.

Enquanto lida com sua nova fama, Zelenko, que pratica telemedicina em seu escritório em casa, está trabalhando para manter vivos seus pacientes com coronavírus. Ele disse que sua equipe viu cerca de 900 pacientes com possíveis sintomas de coronavírus e tratou aproximadamente 350 com seu tratamento. Ninguém morreu na quinta-feira, disse ele, apesar de seis terem sido hospitalizados e dois estarem com ventiladores pulmonares.

Ele está preocupado com sua própria saúde. Um de seus pulmões foi removido como parte de seu tratamento contra o câncer, e a quimioterapia enfraqueceu seu sistema imunológico, colocando-o em uma categoria de alto risco para o coronavírus.

"Tenho oito filhos e quero viver", disse ele. "Pessoalmente, estou motivado a encontrar uma solução." /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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