Falsos estereótipos sobre palestinos e israelenses

Meu coração saltou quando vi um cartaz na entrada do centro comunitário muçulmano em Java, na Indonésia, em 2009. Eu não precisava conhecer a língua local para entender a foto de crianças de Gaza mortas e feridas. Mesmo assim, pedi uma tradução. Constrangido, o tradutor explicou que o cartaz informava a quantidade de dinheiro que o grupo comunitário havia levantado para alívio humanitário após a operação Chumbo Grosso, alguns meses antes, e rezava pelo fim da "entidade sionista".

Jill Jacobs, Washington Post

02 de agosto de 2014 | 02h01

Eu havia ido à Indonésia com uma delegação de líderes religiosos americanos para conversar em universidades e centros comunitários sobre pluralismo religioso nos EUA. Não era minha vez de me apresentar naquele dia, por isso tive tempo para conversar sobre o cartaz com os membros da Muhammadiyah, uma das maiores organizações muçulmanas da Indonésia. No fim, não tive escolha.

"Tenho uma pergunta para a rabina", começou um participante durante uma sessão de perguntas e respostas: "Por que judeus matam crianças muçulmanas?" Com o coração martelando no peito, eu me levantei. Falei de minha dor com a perda de vidas de civis de Gaza, incluindo tantas crianças. Depois, respirei fundo. "Eu reparei no cartaz na entrada", comecei. Elogiei o grupo por levantar dinheiro para alívio humanitário para as pessoas envolvidas na guerra.

"Mas, quando vocês pedem o fim da entidade sionista, gostaria que soubessem que estão falando de minha família, de meus amigos e do meu povo", eu disse. Falei de meus compromissos com Israel, do significado de Israel para o povo judeu e de minha firme crença de que uma solução de dois Estados permitirá que os dois povos vivam em paz de segurança.

Para meu espanto, a plateia aplaudiu. Depois, muitos dos presentes me disseram que jamais haviam pensado em quem poderia viver em Israel. Que jamais haviam pensado que uma solução de dois Estados era possível. Que acreditavam que os judeus só queriam matar muçulmanos. E riscaram a linha final do cartaz.

Abertura. O caso não transformou as relações entre israelenses e palestinos e não mudou a percepção dos judeus na Indonésia. Eu aprendi, porém, que um pouco de empatia pode ser de grande ajuda. Ao ouvir minha preocupação com a morte de muçulmanos, o grupo pôde se abrir para imaginar o sofrimento de judeus. Na guerra em curso entre Israel e Hamas, precisamos de uma empatia radical. Isso significa nos abrirmos para a dor do outro exatamente no momento em que estamos aterrorizados por este outro.

A ideia não é nova. Já no primeiro século da Era Cristã, à sombra da destruição de Jerusalém, Rabban Hamliel, um dos rabinos mais importantes de seu tempo, ensinava que "aquele que tiver compaixão de outros seres humanos merecerá compaixão do alto". Hoje, sofremos com a linguagem cáustica dos partidários, tanto de Israel como dos palestinos, seja na Europa ou nos EUA. As vozes estridentes ignoram ou negam veementemente a narrativa dolorosa do outro.

O lado pró-palestino coloca toda a culpa em Israel e na ocupação, subestima ou justifica ataques com foguetes a importantes cidades israelenses e permite que as críticas a Israel descambem para um feio antissemitismo.

"Os ataques com foguetes de Gaza são uma resposta desesperada a essas injustiças", escreve Waleed Ahmed, no blog de notícias Mondoweiss. "Nenhum povo toleraria uma ocupação opressiva e um cerco injusto, por que os palestinos deveriam fazê-lo?" Manifestantes em Londres, Paris e Berlim seguravam cartazes dizendo "Hitler tinha razão".

Do lado de Israel, também muitos respondem com indiferença aos números de mortes de palestinos, colocam a culpa no Hamas e demonizam todos os muçulmanos. No Wall Street Journal, Thane Rosenbaum escreveu: "Vocês perdem seu direito de ser chamados civis quando elegem livremente membros de uma organização terrorista como estadistas".

Essa falta de empatia não se limita a Israel e a Gaza. Já testemunhamos um atentado com bomba a uma sinagoga em Paris, manifestantes alemães pedindo o extermínio de judeus com gás e cartazes de protestos exibindo imagens antissemitas clássicas. Em Jerusalém e Tel-Aviv, turbas de judeus direitistas, alguns usando camisetas fascistas, marcharam pelas ruas gritando "Morte aos Árabes" e agredindo palestinos e esquerdistas judeus.

Vozes moderadas. Isto é o que precisamos ouvir: vozes pró-palestinas que demonstrem empatia com os israelenses que correm para abrigos, que denunciem o terrorismo e os ataques com foguetes. Num artigo de opinião, por exemplo, um estudante palestino-americano pede que os manifestantes pró-palestinos rejeitem o antissemitismo.

E precisamos ouvir vozes pró-Israel expressando pesar pelas mortes de crianças palestinas, pedindo proteção para os civis, reconhecendo os danos causados por 47 anos de ocupação e denunciando qualquer linguajar que desumanize palestinos ou muçulmanos. / Tradução de Celso Paciornik

* É diretora da Truah, entidade de rabinos em defesa dos direitos humanos

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