Juan BARRETO / AFP
Coronel Gabriel de Jesús Rincón, já retirado, conta como funcionava o esquema dos 'falsos positivos' na Colômbia  Juan BARRETO / AFP

'Falsos positivos': como funcionou o maior escândalo militar da Colômbia

Em troca de recompensas, militares matavam civis e afirmavam oficialmente que eram guerrilheiros ou narcotraficantes mortos em combate

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2020 | 04h00

BOGOTÁ - Em plena ofensiva militar para pacificar o país, os refrigeradores do necrotério de uma cidade na Colômbia ficavam lotados. Na ocasião, lembra o coronel Gabriel de Jesús Rincón, foram tirados dali e levados a uma vala comum os corpos sem identificação de supostos guerrilheiros e criminosos.

Mas na verdade, este necrotério estava lotado de corpos de civis assassinados. "Eu não matei, mas influenciei para que os atos fossem cometidos", admite Rincón em entrevista exclusiva com a AFP. Foi o que marcou a queda do oficial reformado de 53 anos e trouxe à tona o pior escândalo das Forças Militares da Colômbia, no âmbito de um conflito de seis décadas.

Este homem de olhar firme ficou 22 anos no Exército até ser condenado por desaparecimento e homicídio. Entre 2006 e 2008, foi oficial de operações da Brigada Móvel 15, com jurisdição no Departamento (Estado) de Norte de Santander, fronteiriço com a Venezuela.

Na época, a luta militar contra as guerrilhas foi tão intensa que o necrotério do município de Ocaña não deu vazão. Em setembro de 2008, a prefeitura e a cúria, temendo uma crise sanitária, conduziram legalmente o traslado de 25 corpos que estavam em câmaras refrigeradas para uma vala comum na localidade de Las Liscas.

No processo, alguns acabaram sendo identificados como corpos de civis que tinham desaparecido semanas antes e eram procurados muito longe dali por seus parentes.

Rincón conta que com a exumação soube quem eram suas vítimas: jovens pobres, que foram enganados e levados para Ocaña saindo de Soacha, localidade próxima a Bogotá e a 740 km do local onde foram mortos por militares. "Apoiei algumas unidades para dar-lhes alguns meios (...) Falo de fornecer-lhes armamento (...) para fazê-los passar como mortos em combate", detalha.  

O alto oficial compartilha pela primeira vez com um veículo de comunicação o que contou aos juízes de paz e às famílias das vítimas, no âmbito de um processo de verdade e justiça com o qual busca uma redução de pena.

Recompensas

Os militares tinham organizado seu próprio 'body count', uma contagem premiada de corpos para mostrar resultados na guerra contra as guerrilhas e os paramilitares do narcotráfico, que se intensificou com a chegada de Álvaro Uribe à presidência, em 2002. 

"Não denunciei e permiti que as unidades que estavam lá, na área de combate, fizessem estas práticas", admite Rincón. As recompensas aos soldados incluíam medalhas, dias de folga, anotações elogiosas no currículo ou promoções.

Rincón passou quase dez anos na prisão. Em 2017, foi condenado a 46 anos pelo homicídio de cinco jovens de 20 a 25 anos que moravam em Soacha e foram inicialmente identificados como "mortos em combate".

Segundo seu relato, dois civis que atuavam como recrutadores e com quem não teve relação direta, os levavam de ônibus até Ocaña com a promessa de ganhar "dinheiro rápido". Os dois homens e um sargento faziam parte de uma "organização criminosa", que agiu neste caso.

Uma vez em Ocaña, a unidade Espada se ocupava dos homicídios. "Nunca cheguei a explicar nada para eles (...) O único que lhes disse foi: vão sair para esta operação, vão acompanhá-los e entregarão umas pessoas e vocês já sabem o que têm que fazer". 

Víctor Gómez tinha 23 anos quando viajou, enganado, para Ocaña na companhia de Jader Palacio e Diego Tamayo. "Os embebedaram e os levaram para (...) uma falsa blitz do Exército e ali os recrutadores os entregavam (...) No dia seguinte, estavam mortos", conta Carmenza Gómez, mãe de Víctor.

Os três foram apresentados como parte de uma organização criminosa. "Víctor tinha um tiro na testa, um tiro de misericórdia", conta esta mulher de 62 anos, que recebeu proteção do Estado após sofrer ameaças por "buscar a verdade".

Conhecidos no jargão militar como "positivos", milhares destes resultados foram na verdade execuções de civis a sangre frio. 

Dados reais 

A Justiça tomou conhecimento de 2.248 "falsos positivos" entre 1988 e 2014, sendo que 59% das execuções ocorreram entre 2006 e 2008 sob o mandato do agora senador Uribe (2002-2010), que sempre negou qualquer responsabilidade.

"As instigações para os comandantes (eram) de tal forma que tinham que apresentar resultados como fosse e esse 'como fosse' os levava a cometer estes assassinados, dando-lhes aparência de legalidade", diz Rincón. 

José Miguel Vivanco, da ONG Human Rights Watch, afirma que vários expedientes estão "esquecidos na Justiça Penal Militar", mas uma "estimativa confiável" das Nações Unidas sugere até cinco mil execuções. Isto não foi coisa de "umas poucas maçãs podres, mas crimes generalizados e sistemáticos", destaca Vivanco. O Ministério Público investiga 29 generais por estes crimes.

Antes de chegar à Brigada Móvel 15, em 2006, Rincón se lembra de ter sido abordado por quem seria comandante do Exército, o general Mario Montoya, já reformado e também presente à Jurisdição Especial para a Paz (JEP), criada a partir do acordo de 2016, que levou ao desarmamento da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

"Como vai aportar à guerra? Me questionou o general. Quantos mortos vai colocar? Eu lhe respondi 'mas mortos de onde? Eu não tenho nenhuma funcionalidade operacional'. Então, ele, não sei se de forma jocosa, mas sim direta, me disse: 'E por que não tira uns caras lá do necrotério, os veste com uniforme e os reporta como resultados?".

Quando reencontrou Montoya, Rincón já estava na brigada móvel. "Agora sim, vai saber o que é a guerra. Agora sim, vai ajudar na guerra", relata, repetindo as palavras que lhe teria dito Montoya, chefe do Exército entre 2006 e 2008. 

E embora nunca tenha recebido dele uma ordem direta para matar, o coronel revelou a existência de "um top 10" de unidades militares em que os êxitos se mediam exclusivamente por mortos. Se alguém não "estava dando resultados, tinha que deixar a instituição". A defesa de Montoya assegura que ele "não instigava absolutamente nada".

"Existem 2.140 militares vinculados a investigações de execuções extrajudiciais, o que equivale a 0,9% do total dos homens que operaram no Exército no período mencionado, o que mostra que em nenhum momento existiu uma diretiva ou diretriz ao Exército para atos tão atrozes", sustenta o advogado Andrés Garzón. 

Ameaças

Rincón se submeteu à JEP, que investiga os piores crimes cometidos por guerrilheiros e militares em um conflito com oito milhões de vítimas entre mortos, desaparecidos e deslocados. Em 2018, após pedir perdão, Rincón recuperou temporariamente sua liberdade em troca de contar a verdade e reparar suas vítimas. Em novembro, recebeu proteção estatal após um atentado frustrado quando visitava seu irmão. Sua advogada, Tania Parra, também foi ameaçada.

Vinte dos 219 militares que estão sob a jurisdição especial têm segurança pelas mesmas razões. Suspensas temporariamente pela emergência da pandemia do novo coronavírus, as audiências judiciais foram retomadas virtualmente em 4 de maio.

"Contar a verdade depois de um conflito de mais de 50 anos sem dúvida implica um risco", destaca Giovanni Álvarez, diretor da Unidade de Investigação e Acusação da JEP.

Agora, Rincón espera a acareação com suas vítimas. Quer lhes contar como era essa "instigação e pressão" que arruinou tantas vidas e o transformou em um carrasco "por favorecer interesses institucionais". "Vai ser muito difícil que nos vejamos cara a cara, a vítima ao algoz", diz. Lágrimas surgem quando as câmeras desligam. / AFP

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A luta de uma mãe para saber a verdade sobre a morte de seu filho por militares na Colômbia

Víctor Gómez trabalhava como segurança, desapareceu em junho de 2008 e, no mês seguinte, seu corpo foi encontrado longe da cidade onde vivia

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2020 | 04h00

BOGOTÁ - Foram nove anos reconstruindo a execução extrajudicial de seu filho. Na busca por justiça, Carmenza Gómez descobriu uma "banda podre" do Exército colombiano e exige a verdade sobre o crime. 

Víctor Gómez trabalhava como segurança em Bogotá. Em 23 de agosto de 2008, ele desapareceu junto com Diego Tamayo e Jader Palacio. No mês seguinte, seus corpos foram encontrados muito longe de Soacha, a cidade onde moravam ao sul de Bogotá. 

Com a falsa promessa de um emprego melhor, desconhecidos - identificados mais tarde - os levaram ao Departamento (Estado) de Norte de Santander, na fronteira com a Venezuela. "Eles os embriagaram e os levaram para um falso posto de controle do Exército ... No dia seguinte, amanheceram mortos", disse a mulher de 62 anos à AFP. "Victor levou um tiro na testa, um tiro de graça." 

Autoridades identificaram o jovem de 23 anos como membro de uma organização paramilitar que morreu em combate. Ele era o sexto de oito filhos que Carmenza criou sozinha.

A mulher conta que descobriu o que aconteceu com Victor porque um estagiário do Instituto Médico Legal, primo de um de seus amigos desaparecidos, encontrou a foto de seu parente. O corpo estava em um necrotério a 740 quilômetros de Soacha. 

No mesmo álbum, também estava Victor. "Você quer que a terra se abra e leve você. Eu desmaiei", lembra ela. "Um pai ou mãe nunca está preparado para ver um filho morto."

Escândalo das Forças Armadas

Carmenza juntou o dinheiro que pôde e viajou em busca do corpo do filho, que junto com outros cadáveres estava sendo transferido do necrotério para uma vala comum. Com o tempo, os 19 jovens de Soacha foram localizados em várias covas. "Fui eu quem descobriu essa 'banda podre' do Exército", diz a mulher, que recebeu proteção do Estado para garantir sua segurança.

Sem imaginar, Carmenza começou a desvendar o maior escândalo da história das Forças Armadas colombianas: os "falsos positivos", execuções de civis por militares que as apresentavam como baixas em combate para aumentar os resultados de um conflito que ensanguentou o país por quase sessenta anos.

A promotoria registrou 2.248 "falsos positivos" - em grande parte, jovens pobres - entre 1988 e 2014, sendo que 59% dos casos ocorreram durante o governo do agora senador Álvaro Uribe (2002-2010), que lutou incansavelmente contra os grupos rebeldes. 

Como recompensa pelas mortes, os militares recebiam dias de folga, medalhas e promessas de ascensão. Quando o paradeiro dos jovens desaparecidos de Soacha foi confirmado, o governo destituiu 27 soldados e Uribe negou qualquer responsabilidade. 

Começou então a maratona judicial de Carmenza e outras 13 mulheres que formam o Coletivo Mães dos Falsos Positivos.

Enquanto ela buscava justiça, em 4 de fevereiro de 2009, indivíduos não identificados mataram a tiros outro de seus filhos, John. Carmenza acredita que ele tenha sido morto porque estava investigando a morte do irmão. A mulher lembra com remorso sua admiração pelo Exército colombiano, ao qual três de seus cinco filhos prestaram serviço obrigatório.

Apesar da nova perda e do medo, Carmenza não desistiu e acompanhou praticamente todas as audiências relacionadas à morte de Victor. Em 2017, nove anos após o crime, a justiça civil condenou 17 soldados e comandantes.  Todo esse tempo "eu olhava para eles, cara a cara, no mesmo recinto, quando as audiências eram públicas, e eles apenas zombavam ou se escondiam", lamenta ela. 

Justiça Especial para a Paz

Vários dos condenados uniformizados recuperaram temporariamente sua liberdade após serem submetidos a uma justiça especial decorrente do acordo de paz de 2016, que encerrou meio século de luta armada com a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Foi "um golpe muito duro", desabafa Carmenza. No entanto, apesar de cética, ela espera que essa concessão revele a verdade e haja reparação para as vítimas, de acordo com o pacto firmado pelo governo com a guerrilha para esclarecer os piores crimes do conflito. "A única coisa que espero é que se retirem os benefícios (criminais) se não contarem toda a verdade ", acrescenta.

A patente mais alta vinculada aos "falsos positivos" é o general Mario Montoya, comandante do Exército entre 2006 e 2008, que alegou em audiência que seus subordinados interpretaram mal suas exigências por resultados. 

Carmenza considera que o Estado é o maior responsável pelos crimes por estabelecer uma política de "pagar recompensas para dizer que eles estavam vencendo a guerra, matando civis". Ela garante que quando a verdade for revelada, poderá considerar um perdão. 

Em tempos de pandemia, as mães de Soacha vendem máscaras com uma pergunta que resume sua luta: "Quem deu a ordem?" / AFP 

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