Falta alguém que nos surpreenda

Envio de tropas ao Iraque não trará resultados sem a conscientização política de árabes e muçulmanos, capaz de eliminar as diferenças intercomunitárias

THOMAS L. FRIEDMAN THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2010 | 00h00

Acabo de ver o filme Invictus - que conta que Nelson Mandela, em seu primeiro mandato na África do Sul, convoca o famoso time de Rugby sul-africano, os Springboks, para uma missão: ganhar a Copa do Mundo de Rugby de 1995 e, a partir disso, começar a cicatrizar as feridas do país dilacerado pelo apartheid.

Os Springboks, quase todos brancos, haviam sido o símbolo da dominação dos brancos, enquanto os negros como sempre torciam contra eles. Quando o Comitê Sul-africano de Esportes decidiu mudar o nome e as cores do time, o presidente Mandela não permitiu. Ele explicou que não seria arrancando todos seus símbolos mais prezados que os brancos se sentiriam em casa no país agora governado por negros.

"Esta é uma maneira de pensar egoísta", afirma no filme Morgan Friedman, no papel de Mandela. "Não é bom para esta nação". Depois, falando dos brancos sul-africanos, Mandela acrescenta: "Precisamos surpreendê-los com comedimento e generosidade."

Gosto muito desta frase: "Precisamos surpreendê-los." Vi o filme a bordo de um avião e rabisquei a frase no meu guardanapo porque ela sintetiza o que está faltando hoje em tantos países: líderes que nos surpreendam, capazes de ir além de sua história, de sua clientela política, suas pesquisas de opinião, suas circunstâncias - e simplesmente façam o que é certo para seus países.

Tentei lembrar quando foi a última vez que um líder de grande projeção me surpreendeu fazendo algo positivo, de corajoso contra a vontade popular de seu país ou partido. Foram muito poucas: Yitzhak Rabin por assinar o Acordo de Paz de Oslo. Anuar Sadat indo a Jerusalém, e, evidentemente, Mandela pela maneira como governou a África do Sul.

Mas eles são exceções. Veja-se o Iraque hoje. Cinco meses depois de suas primeiras eleições gerais verdadeiramente livres, em que todas as principais comunidades votaram, a elite política não consegue ir além das identidades xiita ou sunita e avançar de modo a produzir um governo de unidade nacional capaz de levar o Iraque para o futuro.

É verdade que a democracia demora muito para crescer, principalmente em um solo ensanguentado por um ditador assassino durante 30 anos. Mas, até agora, os novos líderes iraquianos nos surpreenderam somente de maneira negativa.

Será que eles nos surpreenderão de outro modo? E deveremos nos importar com isso agora que estamos deixando o país? Sim, porque as raízes do 11 de Setembro estão no embate entre a comunidade muçulmana, para o qual os Estados Unidos, aliados de uma facção, foram atraídos.

Hoje travam-se pelo menos três guerras entre os muçulmanos. Uma entre os sunitas da extrema direita e os sauditas da extrema direita radical na Arábia Saudita. Esta foi a guerra entre Osama bin Laden (a extrema direita radical) e a família dos governantes sunitas (a extrema direita). É uma guerra entre os que acham que as mulheres não devem dirigir, e os que acham que elas nem sequer deveriam sair de casa. Bin Laden nos atacou porque defendemos seus rivais sauditas - o que fazemos para conseguirmos seu petróleo.

No Iraque, temos simplesmente a luta entre sunitas e xiitas. E no Paquistão, temos os sunitas fundamentalistas contra os xiitas. Deve-se observar que em cada uma destas guerras civis, não passa uma semana sem que uma facção muçulmana não ataque uma mesquita de outra facção ou uma reunião de inocentes - como a bomba que explodiu em Bagdá na terça-feira da semana passada, na abertura do Ramadã, que matou 61 pessoas.

Em suma, a luta fundamental com o Islã não se trava entre sociedades diferentes, e certamente não entre americanos e muçulmanos, mas no interior de uma sociedade, extrapolando para todo o mundo muçulmano. A guerra do Iraque foi, é e continuará sendo importante, porque ofereceu a primeira oportunidade para sunitas e xiitas fazerem algo que nunca haviam feito na história moderna: nos surpreenderem e escreverem livremente seu próprio contrato social, segundo o qual devem viver em comunidade e compartilhar o poder e os recursos.

Se puderem fazer isto, no coração do mundo árabe, e começarem realmente a enfraquecer a luta que se desencadeia no interior do Islã, será um fabuloso exemplo para os outros. Significará que todo país árabe poderá ser uma democracia e não precisará se manter unido por meio de um punho de ferro.

Mas sem Mandelas xiitas e sunitas iraquianos será impossível que o futuro enterre o passado. Um dos guardas de Mandela, vendo o novo presidente relacionar-se com os brancos sul-africanos, pergunta no filme: "Como é possível que o senhor tenha passado 30 anos em uma minúscula cela e tenha saído disposto a perdoar as pessoas que o colocaram lá?" Para isso, é necessário um líder muito especial.

É por isso também que a questão da construção da mesquita e do centro comunitário nas imediações do local do atentado do 11 de Setembro é de secundária importância. A questão realmente importante "não é saber se diferentes seitas muçulmanas poderão viver em harmonia com os americanos, mas se viverão em harmonia entre si", disse Stephen P. Cohen, especialista em relações entre religiões diferentes e autor de Beyond America"s Gap: a Century of Failed Diplomacy in the Middle East (Além da compreensão para os Estados Unidos: um século de diplomacia perdido no Oriente Médio).

Na realidade, o grande problema não é o fato de aqueles muçulmanos construírem mesquitas nos EUA, mas de aqueles muçulmanos explodirem mesquitas no Oriente Médio. E a resposta a isso não é o diálogo entre religiões nos EUA. É o diálogo entre confissões - infelizmente inexistente - no mundo islâmico. O envio de novas tropas americanas ao Iraque nunca trará resultados sem uma maior conscientização política de árabes e muçulmanos, capaz de eliminar as diferenças intercomunitárias.

Seria maravilhoso se o presidente Barack Obama surpreendesse a todos e pronunciasse outro discurso do Cairo - ou de Bagdá - sobre este tema. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER E AUTOR DO LIVRO "DE BEIRUTE A JERUSALÉM"

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