Falta aos EUA uma família real

É útil ter um grupo para atrair atenção, seja com pequenos escândalos ou atos divertidos

É COLUNISTA, GAIL, COLLINS, THE NEW YORK TIMES , É COLUNISTA, GAIL, COLLINS, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2013 | 02h13

Começo a achar que uma família real poderia ter certa utilidade nos EUA.

Sem dúvida, a interminável espera, sem que nada acontecesse, do nascimento de George, príncipe de Cambridge, poderia lembrar ao observador desapaixonado a expectativa suscitada pelo nascimento de mais um bebê panda. Como será que irão chamá-lo? Querem comprar camisetas de lembrança?

Mas enquanto a Grã-Bretanha aguardava a chegada do mais novo Windsor, em Nova York esperávamos o segundo capítulo do escândalo sexual de Anthony Weiner. Os britânicos tiveram mais sorte.

"Eu disse que havia mais coisas", lembrou em tom petulante aos repórteres o deputado caído em desgraça, candidato a prefeito, quando se espalharam os boatos de que ele estaria fazendo sexo pela internet, depois que sua reabilitação teria supostamente começado. A mensagem básica foi que, como Weiner jamais desmentiu especificamente a possibilidade de novos escândalos, este não conta. A revelação feita esta semana teve momentos de perverso fascínio. O nome que ele adotou online é Carlos Danger. A cidade nunca teve um prefeito com um alter ego oficial. Será necessário um gabinete separado? Talvez outros prefeitos gostem de avaliar essa possibilidade.

Além disso, parece que os longos discursos de Weiner no Congresso sobre o plano para contribuinte individual foram uma espécie de chamado de acasalamento. "Seu papo sobre saúde foi tremendamente excitante", escreveu a mulher que supostamente mantinha conversas obscenas com ele na internet. Deveríamos nos perguntar se haverá mensagens de texto equivalentes da direita, dirigidas a alguma republicana da Câmara, indagando se ela fica excitada e alvoroçada toda vez que ele vota a favor do corte de verbas.

No entanto, há um ponto nos escândalos políticos em que o mau comportamento deixa de ser uma brincadeira para tornar-se apenas algo triste e deprimente. Chegamos a esse ponto com Anthony Weiner, que decidiu concorrer à prefeitura mesmo sabendo que esse seria o único resultado inevitável: uma nova humilhação, estardalhaço geral, a figura trágica da mulher. Tudo isso porque ele não consegue imaginar a vida longe dos holofotes.

Aí está a vantagem de uma família real. Se os EUA tivessem algumas figuras famosas nos altos escalões do governo, talvez a política americana tivesse menos a ver com celebridade e atraísse menos egos carentes.

O grande fascínio da realeza britânica está no fato de que ela consegue ser tanto glamourosa quanto tediosa (o cabelo de Kate, a falta de não sei o quê de Will, o irmão traquinas e a avó de 87 anos). Cada evento de suas vidas é motivo de falatório interminável. Mas tudo bem. Até o fato da superexposição da mídia acampada três semanas na ala da maternidade exerceu uma espécie de atração como um desastre ferroviário.

Há algo profundamente constrangedor em ver os comentaristas obrigados a opinar dia após dia sem dispor de uma única informação. Ou um pensamento mais excitante do que saber se Lupo, o spaniel real, se mostrará feliz com o novo membro da família. A revista britânica Tatler batizou o cachorro como uma "das 50 pessoas mais fascinantes do país" no início do ano (todo mundo trabalha naquela família).

O que há nos EUA mais próximo de uma família real é a do presidente, e eles costumam ser homens de meia-idade que produzem bem poucos eventos marcantes para a família. E mesmo quando o fazem, a reação do país às vezes é particularmente mal-humorada.

Um único presidente casou ou se tornou pai na Casa Branca: Grover Cleveland, uma das personalidades mais desinteressantes que exerceram o cargo. Ele casou com Frances, muito mais jovem que ele, no início do primeiro mandato. No final do segundo, eles tinham três filhas. O país adorava a primeira- dama. Mas reagia às boas notícias do presidente com boatos enfurecidos, macabros. Um deles dizia que suas filhas tinham nascido com deformidades porque Grover batia na mulher quando ela estava grávida. Durante uma das últimas recepções oferecidas pela primeira-dama, ela pediu à babá que trouxesse a filha Ruth para que o público visse que ela "tinha todas as pernas, braços e dedos".

John Tyler e Woodrow Wilson casaram durante o respectivo mandato, mas sem uma cerimônia na Casa Branca. O público achou que Wilson deveria ter esperado mais tempo guardando o luto da primeira mulher. Tyler nem mesmo conseguiu ser reeleito por seu partido.

Neste momento na televisão, o presidente e a primeira-dama do seriado hiper popular Scandal anunciam a chegada do Bebê da América. A nação parece adorar. Mas ninguém vive feliz para sempre.

Realmente faz sentido criar um grupo de pessoas com o objetivo específico de inspirar notícias para o público se sentir bem, ou ter um comportamento suficientemente mau para desviar a atenção do que interessa. Talvez então os sujeitos sedentos da atenção do público, que buscam o amor em todos os lugares errados, se interessassem mais por fundos de investimento ou futebol.

Sucesso garantido. Com exceção do custo, embora uma monarquia seja ainda bem menos dispendiosa do que os subsídios para o algodão dados nos EUA. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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