Falta convicção a movimento antiguerra nos EUA, diz analista

Se as crescentes dificuldades enfrentadas pelos Estados Unidos no Iraque tem se tornado uma fonte de constantes comparações entre o atual conflito e o do Vietnã, os movimentos de oposição à guerra de hoje nem de longe dão margem para esse tipo de paralelo. A avaliação é do historiador da Universidade de Harvard John McMillian, estudioso dos movimentos juvenis e da "nova esquerda" que mudaram o panorama cultural dos Estados Unidos no final da década de 1960. Em entrevista por e-mail ao Portal Estadao.com.br, ele frisou as diferenças entre o movimento pacifista surgido a partir dos anos 1960 e a manifestação antiguerra que reuniu cerca de 100 mil pessoas no último sábado em Washington. Ele aponta algumas razões para o que descreve como a falta de engajamento dos americanos em iniciativas para pressionar pelo fim da guerra: "Eu acho que muitas pessoas que se opõem à guerra hoje ainda não tem convicção de estarem certas. Por exemplo, se algum pesquisador me pergunta se eu apoio um fim brusco para guerra, eu diria ´sim´, mas continuaria preocupado com as conseqüências catastróficas que poderiam resultar de uma ação como essa. Eu acredito que muitos americanos pensam da mesma forma; eles apenas não são tão apaixonados por suas crenças como as pessoas nos anos 1960."A entrevista:Como o Sr. analisa a manifestação contra a guerra Iraque realizada no sábado em Washington e quais são suas características? É possível traçar algum tipo de paralelo com o surgimento do movimento pacifista durante a guerra do Vietnã?Eu não estava na demonstração em Washington, mas acompanhei a cobertura na imprensa com cuidado. Em um ótimo artigo publicado no New York Times, o repórter Bob Herbert conta que uma grande variedade de tipos de pessoas participaram do protesto - não apenas esquerdistas. Isso me pareceu encorajador, mas acredito que precisaremos de muitas outras manifestações, com muito mais gente participando, para que os protestos exerçam qualquer efeito sobre a guerra. Foi isso o que vimos nos anos 1960 - muitos e muitos tipos diferentes de protestos antiguerra -, então há uma diferença de escala importante. O movimento contra a Guerra do Vietnã foi muito mais substancial do que o que observamos contra a guerra do Iraque. Se fosse possível imaginar, como o Sr. descreveria o sentimento desses novos "pacifistas"? Qual era o sentimento durante os protestos contra a Guerra do Vietnã?Acredito que haja uma grande gama de sentimentos entre os ativistas antiguerra. Mas durante a Guerra do Vietnã - especialmente no final dos anos 1960 - as pessoas dos dois lados sustentavam seus pontos de vistas com muita paixão. Uma das razões para isso é que a Guerra do Vietnã foi muito pior do que essa: cerca de 58 mil soldados americanos morreram, enquanto nós matamos aproximadamente 2 milhões de vietnamitas. Também durante a guerra do Vietnã, a esquerda podia argumentar de maneira plausível que o que estávamos fazendo era muito errado e imoral. Nós estávamos negando a outro país o direito à autodeterminação, contradizendo nossos próprios valores. Por fim, eu acho que muitas pessoas que se opõem à guerra hoje ainda não tem convicção de estarem certas. Por exemplo, se algum pesquisador me pergunta se eu apoio um fim brusco para guerra, eu diria "sim", mas continuaria preocupado com as conseqüências catastróficas que poderiam resultar de uma ação como essa. Para mim, trazer as tropas de volta para casa é apenas um pouco melhor do que todas as outras terríveis opções que temos na mesa. Eu acredito que muitos americanos pensam da mesma forma; eles apenas não são tão apaixonados por suas crenças como as pessoas nos anos 1960.Essa pressão pela paz pode desencadear um movimento pacifista mais amplo nos Estados Unidos?Eu não acho. Primeiro, eu distinguiria movimento "pela paz" de movimento "pacifista". A maioria dos ativistas contra a guerra de hoje são contra essa guerra, por uma série de motivos, mas eles poderiam facilmente apoiar o envolvimento dos Estados Unidos em outros tipos de guerra. Não houve movimento antiguerra quando atacamos o Taleban no Afeganistão, por exemplo. Os pacifistas, por sua vez, são contrários a qualquer tipo de guerra. É claro que alguns manifestantes antiguerra são pacifistas, mas há muito mais do primeiro tipo do que do segundo.De qualquer forma, houve um grande apoio à invasão do Iraque, e quando Bush, em um porta-aviões, fez aquele discurso absurdo dizendo que "as principais operações de combate haviam acabado", suas taxas de aprovação estavam muito altas. Eu acho que a única razão para a maioria dos americanos terem se voltado contra a guerra é o fato de o conflito estar indo muito mal. Se tivéssemos ganhado e estabilizado o país com poucas baixas, provavelmente Bush teria grande popularidade hoje. Entretanto, ele perdeu popularidade porque deu a impressão de que essa guerra seria fácil, e não esse cenário de pesadelo. Ainda assim, a maioria dos americanos queriam dar a ele o benefício da dúvida, até que se tornasse claro que estamos perdendo uma guerra que provavelmente é invencível.O Sr. Acredita que essas novas demonstrações possam pressionar por mudanças nas estratégias de guerra dessa administração?Mais uma vez, eu acho que precisaremos ver mais demonstrações, com um número maior de pessoas participando, para que seja posto um fim a guerra. É verdade que eu poderia imaginar um cenário em que os protestos públicos continuem crescendo a um ponto em que o presidente seria abandonado pela maioria dos republicanos no Congresso. Mas não acho que isso deva acontecer em um futuro próximo.O movimento estudantil tem participado das manifestações? Essa participação é importante par a criação de um novo movimento pacifista?Eu adoraria ver mais ativistas em idade escolar envolvidos. A participação deles é importante porque jovens manifestantes costumam ter muita energia, entusiasmo e idéias. Estudantes secundaristas também são importantes, porque geralmente não precisam trabalhar durante o dia todo.

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