Falta de alimentos ameaça estabilidade da Coreia do Norte

Pyongyang é o ''primeiro mendigo detentor de armas de destruição em massa''

Blaine Harden, The Washington Post, O Estadao de S.Paulo

10 de março de 2009 | 00h00

Por trás do novo míssil de longo alcance que diz estar prestes a testar e do estoque de plutônio que alega ter para usar em armas nucleares, a Coreia do Norte tem uma fraqueza embaraçosa e insolúvel: sob a liderança de Kim Jong-il, o país não consegue alimentar seu povo. Eternamente dependente de ajuda alimentar, Pyongyang tornou-se um custodiado truculento dos países ricos que ameaça. Trata-se do primeiro mendigo do mundo detentor de mísseis e armas nucleares - um desafio particularmente complexo para o governo de Barack Obama. O "problema de comer", como ele costuma ser chamado na Coreia do Norte, erodiu a autoridade de Kim, estragou uma década de melhora nas relações entre as duas Coreias e tolheu o desenvolvimento de corpos e mentes de milhões de norte-coreanos. Adolescentes que fugiram do Norte na última década são, em média, 13 centímetros mais baixos e cerca de 11 quilos mais magros que os rapazes que cresceram no Sul, segundo medições feitas num centro de assentamento de desertores na Coreia do Sul. O retardamento mental causado pela desnutrição desqualificará cerca de um quarto dos candidatos ao alistamento militar na Coreia do Norte, segundo um relatório divulgado em dezembro pelo Conselho de Segurança Nacional, instituição de inteligência dos EUA. O relatório diz que as deficiências intelectuais causadas pela fome devem aleijar o crescimento econômico, mesmo que o país acabe com seu isolamento. Fome e donativos explicam a recente rodada de provocações da Coreia do Norte contra a Coreia do Sul, que incluíram a ameaça de adotar uma "atitude de confronto total". Após uma década de ajuda incondicional, Seul decidiu no ano passado não doar alimentos e fertilizantes à Coreia do Norte a menos que possa monitorar quais são os beneficiários. Para garantir a doação de alimentos, Kim teve de abrir seu Estado a especialistas em ajuda estrangeiros que mapearam um padrão perigoso de desnutrição em que o acesso à comida depende da proximidade - geográfica e política - com a elite governante. Desde que a fome matou cerca de 1 milhão de norte-coreanos no final dos anos 90, uma rede crescente, desordenada e, em geral, corrupta de mercados privados substituiu o governo como principal distribuidor de alimentos. Segundo estimativas de economistas estrangeiros com acesso a dados sobre alimentos da Coreia do Norte e da ONU, pelo menos metade das calorias consumidas pela população vem de alimentos do mercado paralelo. A Coreia do Norte precisa produzir cerca de 5,5 milhões de toneladas de arroz e cereais para alimentar seus 23,5 milhões de habitantes. Quase todo ano ela não alcança a cifra por cerca de 1 milhão de toneladas. O país tem falta de terras cultiváveis, não dá incentivos aos agricultores e não tem recursos para comprar combustível ou máquinas modernas. Embora a Coreia do Norte seja chamada com frequência de último bastião do stalinismo, ela é melhor compreendida como um Estado policial quase feudal onde a linhagem familiar dita o acesso às melhores escolas, empregos e alimentos. O serviço militar foi, durante décadas, uma maneira de filhos de famílias menos favorecidas escapar da fome. Agora, até militares estão com problemas.

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