Thomas SAMSON / AFP
Thomas SAMSON / AFP

Falta de artesãos pode atrasar reconstrução de Notre-Dame

Arquiteto que participou da restauração do castelo de Windsor diz que dificuldade para encontrar especialistas no manuseio de pedra, madeira, chumbo e vidro - desafio em toda a região - pode determinar o ritmo das obras de recuperação da igreja

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2019 | 11h51

LONDRES - A falta de artesãos qualificados e o debate sobre as modalidades de reconstrução da catedral de Notre-Dame, em Paris, são os principais desafios para essa monumental obra, diz um arquiteto que participou da restauração do castelo de Windsor, na Inglaterra.

"Encontrar artesãos suficientemente capazes de trabalhar com pedra, madeira, chumbo, vidro (...) é um desafio para o setor em toda a Europa", declarou Francis Maude, diretor do estúdio de arquitetura Donald Insall Associates, com sede em Londres.

"Outros grandes projetos enfrentam as mesmas dificuldades, como o Palácio de Westminster, no qual trabalhamos, em Londres", completou.

"(Esta falta de mão de obra) pode ser o elemento-chave que determinará o ritmo e, talvez, algumas das decisões que serão tomadas no processo de restauração", disse o arquiteto, cujo estúdio foi escolhido para restaurar o castelo de Windsor, palco do casamento do Príncipe Harry e Meghan Markle, em 2018.

A residência favorita da rainha Elizabeth II, um castelo medieval cuja construção foi iniciada no século 12, foi devastado por um incêndio em 1992. A reconstrução demorou dois anos e custou na época £ 36,5 milhões (£ 74,91 milhões em valores atuais, equivalentes a R$ 381,3 milhões).

As peças mais bonitas do castelo foram restauradas para seu estado original, enquanto outras tiveram que ser modernizadas. 

Para Maude, a questão sobre a arquitetura original de Notre-Dame pode provocar "sérias discussões" em sua reconstrução. "Alguns pensarão que a única forma de restaurar Notre-Dame é (refazê-la) exatamente como antes", argumentou. Mas a restauração poderia ser inspirada nos trabalhos pós-1ª Guerra na catedral de Reims, também na França, cujo teto foi restaurado com um de aço resistente ao fogo.

O primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, anunciou nesta quarta-feira o lançamento de "um concurso internacional de arquitetura para a reconstrução do pináculo" de Notre-Dame, destruído pelas chamas.

Renovação

A catedral de Notre-Dame também mudou com o tempo, lembrou Maude, citando as obras do arquiteto francês Eugène Viollet-Le-Duc no século 19. Algumas partes da catedral parisiense poderiam ser modernizadas, para torná-la mais segura.

Provavelmente levará vários meses, porém, até que a limpeza termine e o dano seja avaliado para determinar o que pode ser feito.

"Há uma dificuldade particular que me ocorre: o fato de a catedral ser construída em grande parte com pedras calcárias", continua Maude. Exposta a temperaturas superiores a 800ºC, "a pedra calcária se decompõe por reação química (...) e é difícil utilizá-la novamente".

"Imagino que haverá uma grande parte da superfície histórica da obra que estará perdida, mas talvez haja mais pedras dentro das paredes que possam ser reutilizadas".

O interior relativamente vazio da catedral pode jogar a favor. Em Windsor, houve mudanças diferentes ao longo dos séculos que resultaram em uma complexa rede de espaços vazios atrás das paredes, diz Maude.

O fogo será "talvez um símbolo de renovação" para a Notre-Dame, afirma, evocando a possibilidade de que a restauração possa traduzir a expressão "de um temperamento artístico de nosso tempo". / AFP

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