MATIAS DELACROIX / AFP
MATIAS DELACROIX / AFP

Falta de eletricidade agrava crise dos hospitais da Venezuela

Estruturas dependem de geradores elétricos para o funcionamento de áreas como terapia e emergência, mas muitas dessas estruturas - quando existentes - não funcionam e outras tiveram falhas técnicas

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2019 | 12h10
Atualizado 11 de março de 2019 | 16h20

CARACAS - A filha de 8 anos de María Rodríguez está recebendo tratamento para hidrocefalia em um hospital de Caracas, mas desde o início do blecaute de 7 de março só é atendida parcialmente porque o centro de saúde, que agora depende de uma usina elétrica própria, opera com limitações.

“Minha filha precisa de um tratamento de drenagem que dura seis horas que eles dão durante momentos, quando o andar chega a ter alguma luz. O pessoal nos diz que a prioridade é a terapia intensiva”, disse a mãe, de 36 anos. Segundo ela, também tem faltado água e durante três dias os pacientes só comeram arroz e grãos.

Os hospitais da Venezuela já estavam em crise devido à falta de insumos e falhas de equipamentos, e nos últimos dias a situação foi agravada pelo apagão.

Agora eles dependem de geradores elétricos para o funcionamento de áreas como terapia e emergência. Médicos consultados disseram que, embora existam instalações, algumas não funcionaram e outras tiveram falhas técnicas ou lhes faltou combustível.

“O plano de contingência funcionou, se surgiu alguma falha foi corrigida, e os pacientes que o pediram foram transferidos”, disse o ministro da Saúde, Carlos Alvarado, na televisão estatal, acrescentando que o governo garantiu combustível e água.

Mas a organização não governamental Médicos pela Saúde denunciou que os problemas de abastecimento de energia e as limitações da ajuda provocaram a morte de 21 pessoas em hospitais públicos de Caracas e outras localidades.

De acordo com a ONG, só no Hospital Manuel Núñez Tovar de Maturín, no estado de Monagas, no leste do país, 15 pessoas morreram devido às falhas no fornecimento de energia. Em Caracas, quatro recém-nascidos não resistiram ao apagão e também faleceram.

Em Maracaibo, no estado de Zulia, um bebê também morreu em decorrência da falta de luz. Em Maracay, no estado de Aragua, região central da Venezuela, a vítima foi um paciente adulto.

“A primeira coisa que devemos entender é que esta crise acontece quando os hospitais já estavam com uma capacidade operacional reduzida. Não é a mesma coisa uma crise com hospitais que funcionam corretamente”, disse Julio Castro, um médico da ONG, em uma coletiva de imprensa com o líder da oposição Juan Guaidó.

Um grupo dos Médicos pela Saúde foi a um dos hospitais de Caracas, que atende principalmente crianças, ao meio-dia de domingo para obter mais detalhes da situação do local, mas policiais os barraram.

Mães que estavam dentro do hospital gritavam que não tinham comida e pediam aos agentes que permitissem a entrada dos médicos, mas sem sucesso, segundo testemunhas da Reuters.

Horas depois, a diretora do hospital, Natalia Martinho, disse na TV estatal que “as crianças estão estáveis e a reação a esta contingência foi um sucesso (...) demos alimentação às crianças e às mães”. 

Problema crônico

A Médicos pela Saúde é uma organização formada por profissionais do setor que trabalham nos 40 hospitais mais importantes do país. Alguns deles são maternidades ou unidades militares. 

Desde 2014, a entidade realiza a chamada Pesquisa Nacional de Hospitais para registrar as condições das unidades citadas.

Segundo o último levantamento, realizado entre 19 de novembro do ano passado e 9 de fevereiro deste ano, 1.557 pessoas morreram na Venezuela por falta de materiais médicos e 79 por apagões.

"Nós conhecemos os hospitais. Quando divulgamos esses relatórios é porque nossos médicos e nossas enfermeiras tiveram contato com a história, com as certidões de óbito e sabem o que ocorreu. Pode haver mais (mortos) nos hospitais. É possível", disse Castro.

O blecaute que começou na quinta-feira mantém Caracas parcialmente sem luz. Outras regiões estão totalmente no escuro.

Segundo o governo de Nicolás Maduro, o problema ocorreu devido a uma "sabotagem" na hidrelétrica de Guri, a principal do país. O chavismo, no entanto, não deu detalhes sobre como isso ocorreu.

Os governistas afirmam que estão tentando resolver a falha e garantem que o abastecimento está sendo restabelecido lentamente. / REUTERS e EFE

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