Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times
Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Falta de empatia

Quando Trump tenta sair de seu natural agressivo, o resultado é desastroso

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2020 | 05h00

O presidente Donald Trump surfou sobre o que pode ter sido a melhor onda econômica dos EUA, se considerados em seu conjunto os dados de crescimento, desemprego e inflação. Déficit público e endividamento tornavam esses índices talvez insustentáveis no tempo, mas essa não era uma preocupação imediata. 

Trump herdou essas condições de Barack Obama e as potencializou com cortes de impostos, o que ameaçava ainda mais a sustentabilidade no prazo mais longo, mas o fato é que os índices, para o efeito político-eleitoral imediato, lhe sorriam.

A qualidade de um governante não é verdadeiramente testada enquanto ele não enfrenta uma crise. Enquanto a crise se resumia ao coronavírus e aos problemas econômicos a ele associados, o presidente ainda conseguia confundir alguns eleitores sobre a causa de sua dimensão, ignorando que outros governos foram mais felizes na gestão da pandemia. Era o “vírus da China”, somado à insistência dos governadores em paralisar a economia, argumentava ele.

Os protestos iniciados há quase duas semanas expuseram toda a fragilidade do alicerce da liderança de Trump. Esse alicerce é fundado na divisão dos americanos, no ódio entre eles, incentivado pelo presidente e por alguns de seus seguidores e colaboradores. 

Se uma palavra pudesse definir a eleição de Trump em 2016 e o apoio a ele conferido nesses três anos e meio, ela seria “ressentimento”: a mescla de raiva e tristeza de homens brancos com baixo nível de instrução, que se sentem traídos, preteridos e até roubados do seu conforto anterior em empregos seguros na indústria e nos serviços que gravitam a seu redor. 

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

Empregos “exportados” para a China, México e outros lugares. Gastos sociais “desviados” para negros, latinos e imigrantes, com os impostos de brancos. Ineficiências causadas por gestores incompetentes, que drenam a prosperidade da classe média baixa. Essas são as noções, não necessariamente confirmadas pelos dados de realidade, que habitam o imaginário de boa parte dos seguidores de Trump.

O ressentimento não é apenas o fundamento de sua liderança, como algo externo, premeditado, como parte de uma estratégia de poder. É provavelmente parte de seu funcionamento. Não haveria como simular isso de forma tão perfeita. É por isso que, quando Trump tenta sair de seu natural agressivo e divisivo, o resultado é desastroso e ridículo. 

Na segunda-feira, Trump caminhou do Rose Garden até a igreja de St. John para tirar uma foto com uma Bíblia na mão. Segurou o Livro Sagrado de cabeça para baixo, traindo sua total falta de familiaridade com ele. E não declarou nada. Antes, Trump havia chamado os manifestantes de “terroristas” e ameaçado lançar as Forças Armadas contra eles.

O que seria um golpe de relações públicas resultou em críticas de cinco generais à violência das forças de segurança que empurraram os manifestantes do Parque Lafayette para que Trump pudesse passar e de vários líderes religiosos, pelo uso da igreja para transmitir “uma mensagem oposta aos ensinamentos de Jesus”, nas palavras da bispa Mariann Edgar Budde, da Diocese de Washington.

Na sexta-feira, Trump tentou de novo: “Esse é um grande dia para George Floyd”, aparentemente se referindo à queda do desemprego de 20% para 13%. A frase causou novo ultraje, porque ignora duas realidades fundamentais: o desemprego entre os negros subiu, e ficou em 17%, enquanto entre os brancos é 12%, e Floyd está morto.

Antes e depois dessas tentativas frustradas, Trump sempre volta para seu modo agressivo e divisivo, com o seu ressentimento aumentado pela “incompreensão” e “perseguição" contra ele. O que o presidente parece incapaz de entender é que empatia não se pode simular. Ou se sente ou não se sente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.