Federico Parra/ AFP PHOTO - 22/2/2017
Federico Parra/ AFP PHOTO - 22/2/2017

Falta de gasolina arruína safra de legumes na Venezuela

Segundo a principal associação de agricultores da Venezuela, a Fedeagro, a área agricultável de alimentos como milho e arroz devem cair 50% este ano

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2019 | 05h30

CARACAS -  Na Venezuela, onde a fome é cada vez maior, um fazendeiro teve de abandonar toda sua plantação de cenouras. Os caminhões que viriam buscá-las nunca chegaram. Estavam sem gasolina. A crise de combustível que atinge o país desde maio trouxe o setor agrícola, já combalido, à beira do colapso, em uma ameaça direta à fome e à desnutrição que já atingem metade do país. 

“Foi tudo perdido”, disse Joandry Santiago, ao mostrar os legumes estragados – um desperdício de meses de trabalho. 

Anos de corrupção e equívocos de gestão, agravados pelas sanções impostas pelos Estados Unidos, esvaziaram as bombas de gasolina num momento crucial. Se num primeiro momento fazendeiros como Santiago não conseguiram distribuir a colheita, agora têm dificuldade de começar a safra.

Dezenas de agricultores tiveram de reduzir a área cultivável de suas fazendas neste ano, em um movimento que deve agravar ainda mais a pouca distribuição de alimentos no país, que, em virtude da fome e da pobreza, viu 4 milhões de pessoas emigrarem nos últimos anos.

A crise nos combustível se agravou quando os Estados Unidos vetaram a exportação de diluentes para a Venezuela. Assim, o país não consegue refinar o petróleo que produz. Já há registros de racionamento. 

A falta combustível é o último desdobramento dos seis anos de governo do presidente Nicolás Maduro, cujas políticas de controle de preço, restrição de acesso a dólares e sanções ao setor privado reduziram drasticamente a produtividade da indústria e da agricultura no país. 

A região de Pueblo Llano, onde Santiago tem sua fazenda, era responsável por 60% da produção de batatas e cenouras do país. Mas neste ano a produção caiu à metade com a falta de gasolina e outros problemas como a falta de sementes e fertilizantes, segundo a cooperativa da região, a Trinidad. 

O fenômeno de Pueblo Llano é registrado também em outras áreas agrícolas da Venezuela. No leste, plantações de cana de açúcar e arroz estão paradas pela primeira vez em 70 anos porque os fazendeiros não conseguem levar os produtos para distribuição nem comprar fertilizantes e sementes. 

Segundo a principal associação de agricultores da Venezuela, a Fedeagro, a área agricultável de alimentos como milho e arroz devem cair 50% este ano. A queda na produção de açúcar, concentrada no Estado de Portuguesa, deve ser até maior, calculada perto de 60%.

“O colapso é exponencial”, disse o presidente da Fedeagro, Aquiles Hopkins. “A única explicação possível é que o governo simplesmente não liga.”

Maduro tenta resolver a crise com uma promessa de US$ 35 milhões em crédito para o setor. A Fedeagro, no entanto, diz que o projeto é insuficiente e atende apenas fazendeiros simpáticos ao chavismo. /NYT

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