Falta de liderança em Islamabad ameaça plano

Enquanto Barack Obama tenta entender o Paquistão - crucial na estratégia regional para o Afeganistão - o país mergulha novamente na crise, contradizendo as opções que Washington vinha avaliando. A situação no Paquistão se deteriora a um ritmo mais rápido do que os estrategistas conseguem atinar. O mais preocupante na evolução da crise é o vazio de liderança, sem a qual toda negociação será um exercício estéril.A fragilidade do governo torna-se patente de forma dramática: enquanto o chanceler paquistanês Shah Mahmood Qureshi participava de um encontro trilateral em Washington com EUA e Afeganistão, em seu país o governo praticamente cedia o controle de parte do país ao Taleban. A reunião fora marcada para apresentar opções políticas a Richard Holbrooke, o enviado especial americano ao Afeganistão e Paquistão, que serão levadas à Organização do Tratado do Atlântico Norte(Otan) em sua cúpula do dia 2 de abril. Ao mesmo tempo, no Paquistão, um controvertido cessar-fogo com militantes do Taleban no Vale do Swat estava prestes a ser violado, indicadores econômicos despencavam ainda mais e um veredicto da Suprema Corte desqualificava o líder da oposição, Nawaz Sharif, impedindo-o de participar da política e tirando do irmão dele Shahbaz Sharif a possibilidade de tornar-se chefe do governo da Província do Punjab. A terrível semana encerrou-se com um ataque terrorista à seleção de críquete do Sri Lanka, em Lahore. O presidente Asif Ali Zardari tornou-se tremendamente impopular ao recusar-se a se reconciliar com a oposição e não conseguir solucionar questões antigas como o terrorismo e a economia. Com a evolução da crise, torna-se mais difícil estabelecer opções políticas americanas para ajudar o Paquistão. Entretanto, a crise paquistanesa é uma enorme preocupação não apenas para o próprio Paquistão, como para a região e a comunidade internacional.A expansão do Taleban por todo o norte do Paquistão e o fato de os líderes da milícia afegã e da Al-Qaeda terem um refúgio seguro ao longo da fronteira com o Afeganistão apresentam uma enorme ameaça à segurança global, assim como a falência da economia do país. O cessar-fogo no Vale do Swat, a leste das Áreas Tribais (Fata, na sigla em inglês), a apenas 160 quilômetros de Islamabad, praticamente entrega o controle do território a um ramo do Taleban paquistanês. O acordo foi concluído com o maulana Sufi Mohammed, um clérigo radical libertado no ano passado, depois de passar 6 anos na prisão por liderar 10 mil membros da etnia Pashtun na tentativa fracassada de repelir a invasão americana do Afeganistão, em 2001. Ele liderou uma marcha pela paz pelo Vale do Swat para convencer seu genro, o maulana Fazlullah - que lidera o contingente local do Taleban e é um dos principais aliados da Al-Qaeda - a aceitar a oferta do governo em troca da aplicação da sharia (o código penal islâmico) no vale. Os EUA opõem-se a esse tipo de cessar-fogo, que, no passado, só fortaleceu o Taleban, enquanto o Exército paquistanês exausto e desmoralizado o aplaude. O governo insiste que a mudança da lei será uma aplicação limitada da Justiça islâmica por intermédio dos tribunais locais; e é interpretada pelo Taleban como a possibilidade de permitir a plena aplicação da sharia a todos os aspectos da educação, administração e polícia na região. EXPLOSÃO DE ESCOLASOs homens de Fazlullah, auxiliados por jihadistas usbeques, chechenos e árabes, travaram batalhas sangrentas com o Exército nos últimos dois anos, e no ano passado acabaram finalmente expulsando-o e assumindo o controle da maior parte do Vale do Swat. A luta deixou 1.200 civis mortos e provocou o êxodo de cerca de 350 mil pessoas, de uma população de 1,5 milhão. Fazlullah explodiu 200 escolas femininas, enforcou policiais e professores, estabeleceu tribunais da sharia e agora tem um governo paralelo. Embora o governo militar do presidente Pervez Musharraf tenha acertado vários cessar-fogos de curta duração com o Taleban paquistanês, o governo nunca tinha aceitado mudanças tão importantes do sistema legal ou político. O acordo de paz tornou-se um tema explosivo no Paquistão: cidadãos e políticos religiosos de direita o elogiam por levar a paz ao Swat, enquanto os paquistaneses liberais o consideram um inconfundível divisor de águas na batalha do país contra o extremismo islâmico, que concedeu à Al-Qaeda e ao Taleban um novo refúgio seguro. O Swat é vital para os militantes porque está fora do alcance dos aviões não-tripulados americanos, que atacam com sucesso seus líderes nas Áreas Tribais. O Paquistão protestou contra o emprego destes aviões para bombardear seu território e esse recurso será inaceitável se os EUA ampliarem os ataques no Swat, a várias centenas de quilômetros da fronteira afegã. *Ahmed Rashid, jornalista paquistanês e autor de vários livros sobre o Taleban e o Afeganistão, escreveu este artigo para "Global Viewpoint"

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