Falta de segurança foi principal tema da campanha

Segundo ONGs, em 2009, 16 mil pessoas foram assassinadas; Caracas esconde números por 'humanidade'

, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

A Morgue de Bello Monte, único necrotério da região de Caracas, esteve no centro da campanha para as eleições de hoje na Venezuela. A oposição fez da segurança pública seu cavalo de batalha contra o governo de Hugo Chávez. Teve razões para isso. No ano passado, 16 mil pessoas foram vítimas de homicídio, quatro vezes mais do que em 1999, segundo ONGs que fazem suas estimativas por conta própria - uma vez que o governo deixou de fornecer essas cifras há cinco anos.

A ONU estima que o índice de assassinatos no ano passado foi de 52 para cada 100 mil habitantes; no Brasil, esse índice foi de 22 para cada 100 mil.

Chávez apresentou, desde 1999, 15 planos para conter a violência comum. Nenhum foi bem-sucedido. O vice-presidente Elías Jaua, instado a manifestar-se sobre o silêncio oficial sobre o tema, apresentou uma motivação "humana". "Esse não pode ser um tema eleitoral. Falta humanidade aos que exploram essas mortes. Para o governo bolivariano, não importa se são 80, 40 ou 20 mortes. Ainda que fosse um único morto, não os apresentaríamos como um número, em respeito aos parentes que perderam um ente querido. Mesmo que seja um morto, esse morto é importante", disse, numa entrevista no canal estatal VTV.

Um desses parentes estava na quinta-feira de manhã diante do necrotério. María Carmen Salas, moradora de La Bandera, um bairro pobre perto do centro de Caracas, estava à espera da liberação do corpo de Luis, seu sobrinho de 26 anos, morto supostamente durante um assalto.

"Não sei o que dizer. Só sei que a mãe dele tem uma doença cardíaca e está em estado de choque", disse ao Estado. "Já não sabemos se voltaremos para casa depois do trabalho. Não quero falar de política, mas a impressão que tenho é que a cidade está cada vez mais selvagem."

O jornal El Nacional publicou em agosto uma foto do interior da morgue, que mostrava corpos empilhados e no chão. O governo investiu contra o diário e deu início a um processo de sanção com base no equivalente venezuelano do Estatuto da Criança e do Adolescente. "O Palácio de Miraflores (sede do governo) agiu, como age em vários outros casos, como o síndico que sela a janela para esconder a paisagem chocante", afirma, sob condição de anonimato, o diretor de uma das ONGs que tratam do problema. "A questão central é que a impunidade e a corrupção policial estimulam o aumento da violência."

A oposição a Chávez o acusa ainda de negligenciar a questão da segurança pública. Há pelo menos 6 milhões de armas circulando legalmente e um número estimado de 4,5 milhões em situação ilegal.

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