Falta de segurança impede resgate de adolescente soterrada no Haiti

Soldados da ONU isolaram área do soterramento por conta da violência na região.

Anelise Infante, BBC

19 de janeiro de 2010 | 17h00

O resgate de uma adolescente soterrada em um edifício destruído pelo terremoto que devastou a capital haitiana, Porto Príncipe, foi suspenso nesta terça-feira pouco antes de ser concluído devido à falta de segurança para as equipes de resgate.

Segundo o bombeiro espanhol Francisco Pérez Rivas, que coordenava a equipe, soldados da Organização das Nações Unidas (ONU) ordenaram aos bombeiros que deixassem o local e a menina acabou abandonada.

"Fomos retirados à força", disse Rivas, emocionado, em entrevista ao canal estatal de TV espanhol RTVE.

A região onde a menina foi encontrada é chamada zona oito de Porto Príncipe e foi isolada devido aos incidentes de saque e violência nas ruas.

Perigo

De acordo com o bombeiro, sua equipe passou horas tentando salvar a vida da menina, que aparentava ter entre 12 e 14 anos.

Além de presa nos escombros, o corpo dela estava pressionado pelo peso do cadáver da própria mãe e faltava apenas um esforço final para retirar as pernas, já que ela já tinha sido liberada até a cintura.

Mas, segundo o bombeiro, os soldados da ONU que haviam isolado o bairro, obrigaram a equipe a sair da área por causa da violência e falta de segurança.

"Pedi ao comando da ONU com bandeira canadense que nos dessem meia hora para terminar o salvamento. Aceitaram, mas dois minutos depois nos obrigaram a sair".

"Um soldado disse que 'ou morre a menina ou morrem vocês'", contou Rivas, chefe da primeira equipe de resgate que desembarcou no Haiti depois do terremoto.

Queixa

O episódio desencadeou uma queixa do governador da província de Castilla La Mancha (de onde são os bombeiros enviados ao Haiti), José Maria Barreda, que entrou em contato com o Ministério de Relações Exteriores da Espanha.

Em entrevista à BBC Brasil, o governador disse que a queixa foi registrada para "expressar o mal-estar pelo incidente porque talvez as circunstâncias permitissem um final melhor, principalmente para a vítima do soterramento".

O gabinete, no entanto, admite "que os soldados das Nações Unidas estão em solo para garantir a segurança de todos e o governo agradece a proteção aos bombeiros. Só chama a atenção para forma de atuação em uma situação com estas características concretas".

Um porta-voz do Ministério de Relações Exteriores disse à BBC Brasil que o bombeiro Francisco Rivas foi ouvido e "suas considerações levadas adiante".

Sem responder se a queixa foi ou será encaminhada aos comandos da ONU, ele afirmou ainda que "a situação é tensa e complexa em todos os setores de coordenação", por isso "há uma grande margem de incidentes que podem ser resolvidos de outras maneiras, mas nem sempre isso é possível de controlar".

Nova tentativa

O bombeiro disse também que tentou mais tarde voltar ao edifício para terminar o resgate, mas foi impedido de passar por conta do isolamento da área.

Apesar de tantos dias terem se passado desde o terremoto, Rivas acredita que ainda possam ser encontrados sobreviventes nos escombros.

Em entrevista à RTVE, o bombeiro afirmou que una das dificuldades é que o povo haitiano tem tantas necessidades que já não se preocupa com mais nada.

"Os haitianos não se importam se há gente viva debaixo dos escombros. O descontrole é total por tanto desespero. Aqui a vida humana não tem valor", afirmou.

A BBC Brasil procurou a assessoria de comunicação da Organização das Nações Unidas para ouvir seu posicionamento sobre o incidente, mas não houve retorno.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Tudo o que sabemos sobre:
haitiporto príncipeONUeuaajuda

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.