FADEL SENNA / AFP
FADEL SENNA / AFP

Falta de testes e subnotificação preocupam autoridades sobre coronavírus na Africa

Velocidade dos testes não está sendo realizada da maneira ideal

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 12h00

Líderes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o continente africano e especialistas locais manifestaram preocupação com a possibilidade de haver subnotificação nos casos de coronavírus na região. No continente, há cerca de 2.748 casos de coronavírus em 44 nações - cerca de 1% do total mundial. Em 182 países, são 481.230, de acordo com uma contagem da agência de notícias AFP

Questionadas, as autoridades responderam que a velocidade dos testes não está sendo realizada da maneira ideal, mas que as nações estão desenvolvendo e ampliando sua capacidade de testagem. "É verdade que existe uma escassez global de kits de testagem e os países estão desesperados buscando isso. Mas sabemos que centenas de pessoas que tiveram sintomas foram testadas e muitas descartadas", disse a diretora regional da OMS para a África, Matshidiso Moeti. "Não acredito que exista muita gente não detectada com o vírus", disse. 

Para John Nkengasong, diretor dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças, não há subnotificação deliberada. "Estamos vendo um compromisso político para fazer a coisa certa. Mas é possível que tenhamos casos não identificados". O continente de 1,2 bilhão de pessoas está identificando cerca de 300 casos por dia. 

As autoridades recomendaram ainda que a maior parte dos países adotem medidas como o isolamento e o distanciamento social para evitar o avanço da pandemia. Hoje, em mais da metade dos países do continente há apenas casos importados, sem transmissão local. "Por isso, isolar, ver com quem a pessoa teve contato, faz a diferença. Medidas como fechamento de fronteiras e cancelamento de voos precisam ser acompanhadas por intervenções e melhorais no sistema de saúde pública. Espero que essas medidas se expandam". 

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As autoridades recomendaram ainda o estabelecimento de corredores humanitários para garantir o fornecimento de alimentos, equipamentos e de pessoas. O professor adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, Samba Sow, afirmou que o confinamento é o melhor método para acabar com a transmissão de pessoa para pessoa, como recomenda a OMS.

"É o que permitiu à China frear a doença", afirmou. "Mas no contexto africano isso não é fácil. É preciso levar em conta os aspectos econômicos e sociais", reconheceu, lembrando que muitas pessoas vivem de trabalho informal, como pequenos comerciantes e agricultores. "Será preciso cooperação e solidariedade". 

Sow reafirmou que na melhor das hipóteses uma vacina contra o coronavírus estará disponível dentro de 12 ou 18 meses. "Os países precisam estar preparados, é um trabalho que requer comprometimento político, apoio e monitoramento no mais alto nível", disse ele, que é enviado especial da OMS para questões relacionadas ao coronavírus. 

Na avaliação de Michael Yao, gerente do programa de emergências da OMS na África, será preciso haver solidariedade para fornecer equipamentos necessários para elevar a capacidade de testagem e dos sistemas públicos de saúde quando o continente passar por uma fase mais aguda de transmissão local. "Se a gente continuar a ter muitos casos aqui, será um risco mundial".

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