Alessandro Grassani/The New York Times
Alessandro Grassani/The New York Times

Falta de vacinas não é o único obstáculo impedindo a distribuição de doses na Europa

A inércia burocrática, a divisão de responsabilidades e os problemas logísticos vêm prejudicando seriamente os esforços de vacinação. Na Itália, a população mais idosa é a que mais sofre

Jason Horowitz e Emma Bubola, The New York Times

26 de março de 2021 | 08h00

ROMA - O prefeito de Cremona, uma das cidades do norte da Itália mais afetadas pelo coronavírus durante a explosão inicial da pandemia na Europa, recebeu um telefonema no fim de semana em que foi avisado que o centro de vacinação local estava vazio. O sistema de inscrição da região não conseguiu contatar e marcar horários para os moradores mais idosos, deixando mais de 500 doses da vacina em risco de serem jogadas no lixo.

"Havia funcionários e vacinas, mas ninguém para ser vacinado", disse o prefeito, Gianluca Galimberti, acrescentando que o problema já durava várias semanas.

Situações similares vêm ocorrendo em todo o país, com as autoridades lutando para inocular os italianos vulneráveis e os mais idosos, que mais necessitam da vacina.

A distribuição da vacina na Europa avança a passos lentos em comparação com os Estados Unidos e Grã-Bretanha. A suspensão temporária em diversos países, na semana passada, da vacina da AstraZeneca, na qual a Europa apostou, foi apenas uma indicação de como as campanhas de vacinação vêm sendo prejudicadas por uma superabundância de cautela, acordos malfeitos e obrigações desrespeitadas pelas empresas farmacêuticas, criando uma escassez no abastecimento de vacinas.

A situação está tão ruim que a União Europeia estabeleceu restrições de emergência na quarta-feira para suspender as exportações de vacinas por seis semanas, e o governo italiano, agindo a pedido da Comissão Europeia, no último fim de semana enviou a polícia para inspecionar 29 milhões de doses da vacina da AstraZeneca numa fábrica nos arredores de Roma, com suspeitas de possíveis exportações do imunizante para fora do bloco.

Mesmo se o problema não fosse a oferta de vacina, a inércia burocrática, os erros estratégicos, a divisão de responsabilidade e problemas logísticos na hora de fazer os agendamentos vêm afetando gravemente os esforços de vacinação.

Na Itália, esses erros têm afetado especialmente a população dos idosos e os mais vulneráveis. Um ano depois de o país se tornar a primeira nação ocidental a enfrentar o vírus, hoje ela registra a taxa mais alta de óbitos diários da covid-19 entre as maiores potências da Europa. Menos de uma a cada cinco pessoas com mais de 80 anos de idade recebeu as duas doses da vacina e menos de 5% dos septuagenários receberam a primeira dose.

Quanto à distribuição das vacinas, a Itália está em pé de igualdade com França e Alemanha e pouco atrás da Espanha, mas as dificuldades para imunizar os cidadãos mais idosos têm sido um erro letal num país que tem a população mais velha na Europa.

O primeiro-ministro Mario Draghi reconheceu o problema em um discurso no Senado italiano, na quarta-feira, afirmando que embora o ritmo da vacinação comece a acelerar, é "crucial vacinar nossos cidadãos idosos e mais frágeis que mais têm a temer pelas consequências do vírus".

Para acelerar as coisas, seu novo governo procurou centralizar a resposta, colocando um general a cargo do programa de imunização e mobilizando os militares e um exército de novos vacinadores - uma mudança num país em que, no decurso do tempo, muito poder foi dado aos líderes regionais.

Essas medidas sublinham o desespero crescente da Europa em meio a uma terceira onda brutal da covid-19.

O número de óbitos na Itália caiu ligeiramente nos primeiros meses da campanha de vacinação, forçando o governo a tentar proteger os cidadãos não vacinados e decretar um lockdown quase nacional iniciado em 15 de março.

Os italianos, que já sofreram muito com isso, estão buscando as razões para esta mais recente atribulação.

Na distribuição inicial de vacinas, no final de dezembro, a Itália aplicou a vacina da Pfizer nos trabalhadores da saúde. Mas o plano era fazer um amplo uso da vacina da AstraZeneca, mais barata e mais fácil de armazenar, o que ficou prejudicado desde então pela escassez de oferta e várias preocupações com a segurança e eficácia do imunizante.

Na semana passada, a Itália e outros países europeus suspenderam por um curto tempo o uso da vacina, preocupados de que ela possivelmente havia causado coágulos sanguíneos em um punhado de casos. Esta semana, agências reguladoras nos Estados Unidos também levantaram temores de que a companhia teria distorcido dados para deixar a vacina parecer mais eficaz do que realmente é.

Mesmo antes deste caos recente, o órgão italiano que controla alimentos e medicamentos recomendou que o uso da vacina fosse limitado "a indivíduos entre 18 e 55 anos de idade" devido a dúvidas sobre o quão bem a vacina funciona para pessoas mais velhas.

O resultado é que a Itália passou a vacinar os professores dentro dessa faixa de idade, como também advogados, promotores e o corpo administrativo dos hospitais. As pessoas mais idosas e as vulneráveis continuam não vacinadas, ao passo que o número de óbitos continua alto. Na terça-feira, 551 pessoas morreram em consequência do vírus, o maior número registrado desde janeiro.

Na quarta-feira, Draghi declarou que métodos diferentes adotados pelas regiões para a vacinação de pessoas com mais de 80 anos são inaceitáveis, acrescentando que algumas "ignoram sua população mais velha para favorecer grupos que alegam prioridade com base provavelmente em algum poder contratual".

Na Toscana, região admirada por seu sistema de saúde, somente 6% da população com mais de 80 anos de idade receberam as duas doses da vacina, levando a uma carta aberta dos cidadãos influentes da região.

"A ineficiência produz mortes", escreveram.

Matteo Villa, pesquisador do Instituto Italiano de Estudos Políticos Internacionais, afirmou que a estratégia de vacinar primeiramente os trabalhadores da saúde resultou num gargalo que tornou o vírus ainda mais letal.

"Quando começaram os atrasos ainda tínhamos muitas pessoas idosas para vacinar", disse ele.

Guido Bertolaso, que foi diretor da agência de proteção civil da Itália e está agora encarregado da campanha de vacinação, disse que o país não agiu em caráter de emergência.

Acusou as companhias farmacêuticas de não cumprirem suas promessas de entrega, causando os problemas sofridos pela Itália. "Quando você planeja, precisa saber onde conseguir a vacina, quando, que quantidade, se semanalmente", afirmou. "Na Itália, não somos muito bons em termos de planejamento", acrescentou./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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