Falta de vitorioso impede fim de conflito

Israel teve alto número de soldados mortos e o Hamas foi mais isolado por países árabes

Lourival Sant’Anna, O Estado de S. Paulo - Texto ampliado em 10/08/2014 às 17h40 

09 de agosto de 2014 | 21h00

GAZA - As dificuldades de Israel e do Hamas de alcançar um cessar-fogo definitivo se devem, em grande medida, ao fato de que, depois de um mês de conflito, e das enormes perdas humanas e materiais para ambos, nenhum dos dois parecem estar em condições de cantar vitória, de forma convincente. Os objetivos de ambos ao entrar nessa guerra simplesmente estão longe de serem alcançados.

“Ninguém ganhou a guerra”, avalia Hani Habib, analista político do jornal palestino Al-Ayam e professor da Universidade Al-Aqsa, em Gaza. “Todos perderam.” Em vez de ganhar apoio dos países árabes, o Hamas ficou ainda mais isolado, observa o analista palestino, cujo jornal é considerado próximo da facção moderada Fatah, do presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, que governa a Cisjordânia. 

“Israel é um país organizado, que pode absorver os prejuízos econômicos, mas o número alto de soldados mortos, maior do que nas guerras de 2009 e de 2012, é que o faz tentar parar essa guerra.” Os israelenses estavam mais propensos à trégua do que o Hamas, mas as exigências de ambos os lados pareciam difíceis de conciliar. O Hamas quer o fim do bloqueio terrestre (por Israel e pelo Egito) da Faixa de Gaza, a reabertura do porto no Mediterrâneo e a libertação de 100 prisioneiros. Israel aceita relaxar as restrições ao comércio (embora não o porto), mas exige o desarmamento do Hamas, o que um negociador do grupo chamou de “inconcebível”.

Militarmente, parece haver um vencedor, o mais forte: “O Hamas claramente levou uma grande surra”, diz Efraim Inbar, diretor do Centro de Estudos Estratégicos Begin-Sadat, localizado próximo a Tel-Aviv. “Provavelmente a maior parte de sua infraestrutura de túneis e de produção de foguetes foi destruída. Ele gastou cerca de dois terços de seus foguetes sem causar muito estrago em Israel, graças à Cúpula de Ferro (escudo de mísseis anti-foguetes). E perdeu algumas centenas e combatentes experientes.” 

Militares israelenses estimam que o Hamas tenha disparado 3 mil de seus cerca de 9 mil foguetes, e dos de maior alcance. Eles acreditam que o grupo não tenha condições de fabricar esses mais sofisticados na Faixa de Gaza - e nem de receber mais do Irã, por causa do bloqueio imposto pelos militares do Egito desde a derrubada do presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, aliada do Hamas. 

Entretanto, Hussam Dajany, funcionário do Ministério das Relações Exteriores na Faixa de Gaza, garantiu ao Estado que todos os foguetes são fabricados dentro do território. “O bloqueio não afeta o Hamas militarmente”, afirmou ele.

Internamente, ambos os lados parecem ter ganhado popularidade, o que é comum, no calor das guerras - e um dos grandes incentivos políticos para se começar uma. Pesquisa da Universidade de Tel-Aviv afirma que 95% dos judeus israelenses aprovaram a ofensiva, e que apenas 4% consideraram o uso da força excessivo. 

Não foi feita ainda uma sondagem da opinião pública palestina desde o início do conflito, dia 8 de julho, mas todos os analistas com que o Estado conversou ao longo de oito dias em Gaza - independentes, ligados ao Fatah e ao Hamas - concordam que a popularidade do grupo islâmico, antes decrescente, aumentou. Entretanto, como aconteceu depois das guerras anteriores, ela tende a diminuir - uma das razões que levaram o Hamas a provocar Israel, com a escalada de foguetes. O mesmo raciocínio se aplica ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, cujas campanhas eleitorais colocam a segurança dos israelenses acima da paz.

“O Hamas cobra impostos e não devolve em serviços públicos”, analisa Habib. O descontentamento com a gestão do grupo leva moradores da Faixa de Gaza a ter saudade da ocupação israelense, entre 1967 e 2005. “Na época da ocupação israelense vivíamos como em Cingapura”, compara Kamal Seidam, policial aposentado, de 58 anos. “A fronteira era aberta, a vida era mais fácil, quase todos os homens trabalhavam em Israel e ganhavam bem. Agora, ano após ano aumenta o desemprego.”

“A melhor época para mim foi entre 1996 e 1999”, diz o engenheiro de telecomunicações Zaher Ghul, de 36 anos, referindo ao período inicial da Autoridade Palestina. “Havia construção, esperança, estabilidade.” Ghul foi estudar na Argélia em 1999 e voltou em 2002, em meio à segunda intifada (levante palestino). “Há 12 anos os palestinos vivem em guerra, com medo de serem mortos.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.