Falta ''desespero'' à guerra afegã

Duas guerras, dois movimentos de aumento acentuado no número de soldados americanos envolvidos e dois resultados muito diferentes entre si. Por que essa diferença entre o Iraque e o Afeganistão? O "surge" - termo empregado para designar um grande aumento súbito no efetivo americano - no Iraque, que teve início em 2007, deu certo por um motivo simples: os vários participantes envolvidos (sunitas, xiitas e americanos) estavam desesperados. E esse desespero coletivo, mais do que as estratégias ou o número de soldados, influenciou as decisões e atos que finalmente forçaram uma reviravolta no conflito.

Matthew Sherman, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2011 | 00h00

Da mesma maneira, a guerra no Afeganistão não será decidida simplesmente pelo número de soldados envolvidos. Mas me parece claro que o desespero e a urgência que possibilitaram o sucesso do "surge" no Iraque não vão se materializar na Ásia Central. É por isso que uma reviravolta decisiva continua distante e improvável.

Em 2006 e 2007, Bagdá era um coliseu da morte. Milícias xiitas e forças governamentais sectárias eliminavam deliberada e sistematicamente as comunidades sunitas. A guerra civil ardia nas ruas, e os cidadãos iraquianos e os funcionários do governo do país eram assassinados todos os dias.

Nesse epicentro da guerra, vários fatores convergiram para que a direção do conflito fosse revertida. Primeiro, antes mesmo da chegada dos primeiros soldados do "surge", a simples expectativa da sua presença influenciou fortemente os insurgentes.

Em segundo lugar, mapeamos as fissuras entre os numerosos grupos de insurgentes e as exploramos por meio da pressão diplomática e de implacáveis ataques cirúrgicos levados a cabo pelas forças especiais. Por fim, os iraquianos comuns a se uniram na defesa do que ainda restava de suas comunidades, naquilo que se tornou conhecido como o Despertar Sunita.

As dinâmicas no Afeganistão são muito diferentes. A guerra é rural e dispersa. Nas principais cidades, as imagens e a experiência cotidiana da guerra não são tão chocantes quanto eram em Bagdá. Assim, a elite política e econômica do Afeganistão não sente a mesma urgência que afligia sua equivalente no Iraque em 2007. Existe certo grau de desespero e urgência no Afeganistão, mas não se concentra num local ou grupo específico. Os EUA, há muito consideram essa luta desnecessária. No fim, só o anseio coletivo dos afegãos pode pôr um fim à guerra. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

EX-FUNCIONÁRIO DO DEPARTAMENTO DE ESTADO NO IRAQUE E NO AFEGANISTÃO

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