EFE/Michael Reynolds
EFE/Michael Reynolds

Falta diplomacia a Trump? Neste encontro da ONU, seus assessores temem o oposto

Para os conselheiros do presidente americano, o maior risco na Assembleia-Geral das Nações Unidas este ano é o oposto do que foi no ano passado: que o republicano se mostre excessivamente entusiasmado no envolvimento com astutos adversários

Mark Landler e David E. Sanger / The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2018 | 10h00

WASHINGTON - Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez sua primeira visita às Nações Unidas no ano passado, ele ridicularizou o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, como um suicida "homem-foguete" e ameaçou "destruir totalmente" seu país. Ele também prometeu acabar com o acordo nuclear com o Irã, que disse considerar um "constrangimento para os Estados Unidos".

Nesta terça-feira, 25, ele volta a proclamar a abertura que desde então fez ao líder norte-coreano, a quem ele agora chama de "muito honrado", apesar das evidências de que Kim continua a construir um arsenal nuclear. E embora já tenha desferido o prometido golpe no acordo nuclear, também disse que "estaria sempre disponível" para uma reunião com o presidente do Irã, Hassan Rohani.

Para os conselheiros de Trump, o maior risco na Assembleia-Geral das Nações Unidas este ano é o oposto do que foi no ano passado: não que ele seja perigosamente não diplomático, mas que ele se mostre excessivamente entusiasmado no envolvimento com astutos adversários.

Longe de restringir as tendências beligerantes de Trump, seus assessores estão envolvidos em um esforço silencioso para evitar um encontro direto com o líder iraniano, para o qual ele estaria despreparado seja na condução ou para fazer concessões que, segundo eles temem, poderiam minar seus esforços para manter a pressão sobre a Coreia do Norte.

Qualquer uma dessas possibilidades abalaria os assessores de Trump, que de uma forma uniforme são falcões em relação ao Irã e à Coreia do Norte, e preferem pressionar esses países a negociar com eles. Em reunião com o presidente Moon Jae-in da Coreia do Sul na segunda-feira, Moon o pressionou a fazer concessões para manter no rumo as negociações com Kim.

"O presidente está preparado para vociferar e ameaçar, mas ele também quer fechar o acordo do século", disse Robert Malley, que ajudou a negociar o acordo nuclear com o Irã como funcionário no governo Obama.

"Com a Coreia do Norte, funcionou porque ele tinha um parceiro entusiasmado", disse Malley. "O problema que ele vai enfrentar com o Irã é que seus líderes acreditam que uma reunião confirmaria sua estratégia."

As autoridades disseram estar bastante confiantes de que uma reunião com Rohani não acontecerá, principalmente porque os iranianos disseram que não estão interessados. Na sexta-feira, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, levantou mais obstáculos, dizendo que os EUA tinham uma série de "exigências simples" que o Irã teria que cumprir antes de se mostrar dispostos a um compromisso, incluindo a suspensão de lançamentos de mísseis e "parar de ser o maior país patrocinador do terror no mundo".

Estabelecer uma série de requisitos para os iranianos é uma coisa; controlar a convicção do presidente de que ele pode vencer qualquer líder em táticas ou chegar a qualquer acordo é outro. Um exemplo vívido de tais desafios está nos confusos preparativos para Trump ser o presidente de uma reunião do Conselho de Segurança na quarta-feira.

O primeiro instinto de Trump era fazer com que a sessão fosse apenas sobre o Irã, relacionando suas exigências sobre o que o país deve fazer para negociar um novo acordo nuclear e ameaçando aliados - incluindo Grã-Bretanha, França e Alemanha, que negociaram o acordo de 2015 que Trump rejeitou - com sanções severas se não cortarem todos os laços comerciais com Teerã em novembro.

Os britânicos e os alemães, em particular, foram contra: uma sessão apenas sobre o Irã, advertiram na Casa Branca, ilustraria de forma gritante a divisão na aliança ocidental que Trump iniciou ao retirar-se de um acordo que os europeus acreditam estar impedindo o Irã de produzir combustível nuclear para armas. A União Europeia, na verdade, tem ameaçado penalizar as empresas que obedecem às ordens de Washington de cortar laços com o Irã.

No início, suas queixas caíram em ouvidos moucos, de acordo com um alto diplomata europeu. Mas então a Casa Branca mudou de opinião, liderada principalmente pelo conselheiro de segurança nacional de Trump, John Bolton. Como ex-embaixador nas Nações Unidas, Bolton reconheceu que se o Irã fosse o tópico da reunião, Rohani teria direito a um lugar na mesa para responder.

O resultado foi uma decisão de ampliar a agenda para combater a proliferação de armas nucleares, químicas e biológicas, em vez de simplesmente combater o Irã. Embora não tenha ficado claro se os funcionários da Casa Branca perceberam, esse também foi o foco da primeira reunião do Conselho de Segurança liderada pelo presidente Barack Obama, em 2009.

Na sexta-feira, no entanto, Trump confundiu ainda mais as coisas, dizendo em um tuíte: "Vou presidir a reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre o Irã na próxima semana!"

Isso gerou perguntas dos europeus, que pensavam que a questão estivesse resolvida. Um alto diplomata disse que os funcionários da Casa Branca não puderam explicar o tuíte de Trump, mas pediram a eles que o ignorassem, assegurando que a pauta da reunião seria seguida.

Rohani, por sua vez, planeja usar seu tempo em Nova York para revidar os ataques dos Estados Unidos e ampliar as divisões que Trump criou quando se retirou do acordo. No domingo, ele sugeriu que os EUA arcassem com a responsabilidade por um ataque a uma parada militar no Irã que matou 25 pessoas e feriu outras 70 no sábado.

Em reuniões com acadêmicos, funcionários de institutos de altos estudos e jornalistas, Rohani provavelmente retratará o Irã como uma nação pacífica que chegou a um acordo com o Ocidente e cumpriu seus termos, apenas para ver Trump retirar-se.

Em um artigo publicado no The Washington Post na sexta-feira, Rohani escreveu que, quando Trump renunciou ao acordo, "eu poderia ter retribuído e anunciado a retirada do Irã, o que certamente jogaria a região em mais insegurança e instabilidade".

Mas ele disse que não mordeu a isca. O governo Trump, escreveu Rohani, "esperava uma precipitada saída para que ele pudesse forjar uma aliança internacional contra o Irã e reviver automaticamente as sanções anteriores. Nossa ação, ao contrário, frustrou tal decisão".

Não está claro, no entanto, que Rohani possa sustentar essa posição. As exportações de petróleo do Irã estão despencando. Empresas europeias e americanas que anunciaram grandes investimentos ou vendas para o Irã estão se retirando. Estimativas da inteligência americana retratam os efeitos sobre o Irã como devastadores e dizem que provavelmente irão desestabilizar o governo de Teerã.

Avaliações europeias, de acordo com autoridades estrangeiras que os leram, indicam que as sanções só estão fortalecendo o Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos, as unidades militares linha-dura que se opõem fortemente ao acordo e estão ansiosas para retomar seu desenvolvimento nuclear.

Autoridades europeias reconhecem que têm pouco a oferecer aos iranianos para compensá-los pelas sanções defendidas pelos EUA, levando alguns a calcular que, com o tempo, a garantia de Rohani de que o Irã permanecerá no acordo vai desmoronar sob o peso da pressão doméstica.

O encontro de Trump com Moon é igualmente complicado. O líder sul-coreano pressiona o americano a aceitar uma declaração que encerrará formalmente a Guerra da Coreia, 65 anos após as hostilidades terem sido suspensas por um armistício. Esse é um objetivo acalentado por Kim, que o vê como um meio de acabar com o isolamento diplomático da Coreia do Norte.

Os assessores de Trump têm tentado evitar essa medida, argumentando que os EUA cederam o suficiente quando Trump suspendeu exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul - aos quais ele se referiu como "jogos de guerra", adotando a terminologia da Coreia do Norte. Eles temem que outra concessão a Kim alimentaria a narrativa de que o líder norte-coreano está enganando Trump.

Kim acredita que ele agora tem "um parceiro solidário na Casa Branca, que realizou uma cúpula com ele contra o conselho de seus assessores, e concordou em uma declaração em Cingapura, que sob todos os aspectos foi fraca e não conseguiu fazer avançar a política dos EUA, a da desnuclearização totalmente comprovada", escreveu Jung H. Pak, ex-diretor de missão da CIA para a Coreia do Norte e agora estudioso da Brookings Institution, na semana passada.

Alguns funcionários dos EUA temem que Trump já teria se comprometido a assinar tal declaração quando se encontrou com Kim em junho, em Cingapura. Mas como não há notas completas dessas reuniões, um alto funcionário da inteligência disse que não havia certeza sobre o que Trump havia dito.

Kim está pressionando por outra reunião com Trump, e o presidente está receptivo. Mas é provável que ele receba uma mensagem de cautela de outra fonte: o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, com quem jantou em Nova York no domingo.

O Japão compartilha o ceticismo dos assessores da Casa Branca sobre a Coreia do Norte. Quando Abe o visitou em Palm Beach, Flórida, em abril, Trump falou entusiasticamente sobre uma declaração de fim de guerra. "As pessoas não percebem que a Guerra da Coreia não terminou", disse ele. "Está acontecendo agora." O olhar de Abe foi inexpressivo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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